Equador – Miguel Sousa Tavares

equador livroEquador foi publicado em 2003, mas que apenas li em 2009, é um livro que nunca esquecerei e que me marca profundamente por duas razões, primeiro porque gostei imenso de o ler, segundo porque foi o meu companheiro nas horas que antecederam ao nascimento da minha filha… poderão achar este segundo pormenor estranho ou até insólito, mas de facto foi o que aconteceu. As 28 horas anteriores ao nascimento da minha filha foram passadas entre o bloco de partos e “São Tomé e Príncipe”

Habitualmente lia as crónicas e os artigos de Miguel Sousa Tavares, mas pouco mais conhecia deste jornalista que aprecio bastante.
Assim recuei ao inicio do século XX que MST, recriou magistralmente, senti-me na pele de Luís Bernardo Valença e segui os seus passos nesta enorme aventura.
São livros e histórias como esta, que me fazem gostar de ler, porque visualizei as cenas, os cheiros e as emoções dos personagens, Com Equador perdi  sono e sofri com o destino e a solidão de Luís Bernardo perdido algures numa mancha verde no meio do oceano à 100 anos atrás.
repleto de factos históricos e outros faccionados à volta do que sucedeu a Portugal naquela altura, tive uma vantagem em relação aos personagens, sabia de ante-mão o que iria acontecer em algumas situações… como diz o autor no início do livro: “depois das coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida se se tem feito diferente”
Soubesse Luís bernardo que 3 anos depois a Monarquia em Portugal estaria à beira do fim, talvez tivesse pensado duas vezes antes de apanhar o comboio, aqui tão perto de mim… na estação do Barreiro.

É certo que por esta altura, todos leram Equador, não corro assim o risco de estragar a surpresa a  ninguém…
Estamos em 1905, na cosmopolita cidade de Lisboa o jovem advogado Luís Bernardo Valença é um bon-vivant, que goza de um certo desafogo financeiro e que aproveita e bem, as coisas boas que a vida tem para oferecer. Entre o teatro de S. Carlos e o Grémio literário, vamos relembrando alguns locais míticos da cidade (alguns ainda hoje existem) e também alguns costumes da época, como por exemplo a ida a banhos da burguesia à Figueira da Foz.  Grande mérito de MST, por esta pesquisa histórica e tão bem retratada.

Após o seu lançamento, Equador esteve envolto em várias discussões, houve quem acusasse MST de plágio, houve quem dissesse que se tratava de uma cópia descarada e ligeiramente alterada de ” O Primo Basílio”  aceito a comparação em alguns pormenores, mas estamos perante um romance que pretende recriar o início do  século (que agora chamamos de Romance histórico) e possível que tenha algumas semelhanças com o imortal livro de Eça. O facto é que ninguém estava à espera que este livro se transformasse no sucesso que foi, acho que nem o próprio autor, estava à espera.
A minha explicação para este fenómeno que foi e continua a ser para quem o descobre pela primeira vez, é que existem poucos romances como este em Portugal, ou talvez tenham deixado de existir (nos últimos anos), creio que esta foi a chave do sucesso de Equador. Uma história com princípio, meio e fim. Uma história trágica, sobre um amor trágico, que nos arrebatasse, que nos fizesse sonhar acordados. Um livro lido por homens e mulheres de várias idades e de extractos sociais. Se esse foi o “crime” de MST, então que cometa mais crimes como este. Fazem falta histórias destas em Portugal.
Pouco mais irei acrescentar a esta opinião… a história em si termina da forma que sabemos e no fim… fica um vazio e uma tristeza que dura alguns dias, que nos faz reler as últimas páginas, talvez em busca de um outro destino que não aquele.
Para mim Equador não foi só a melhor leitura de 2009, posso dizer sem qualquer dúvida que é um dos melhores livros que já li. E um dos melhores livros escritos em língua Portuguesa, dos últimos anos. Parabéns Miguel Sousa Tavares.

Sinopse: 

Lisboa Dezembro de 1905, Luis Bernardo Valença é chamado à presença do Rei D: Carlos I de Portugal, sendo-lhe imcumbida a dificil missão de defender os interesses do reino na colónia Portuguesa de São Tomé e Principe.Luis Bernardo, jamais adivinharia o que seria a sua vida dali para a frente, deprendido de laços aceita então esta missão sendo nomeado governador geral na longinqua ilha equatorial.Luís Bernardo é um jovem empresário lisboeta, no início do século XX. Dotado de visão estratégica, facilmente se apercebe que as potências estrangeiras tentam, sob a capa de um “humanismo hipócrita”, eliminar a concorrência dos produtores portugueses de cacau, alegando o uso ilegal do trabalho escravo e incentivando o boicote à compra do cacau de São Tomé.
Mas a realidade não é diferente da dos outros países colonizadores. Luís Bernardo escreve um artigo denunciando a situação e é convidado pelo próprio Rei D. Carlos a ocupar o lugar de governador das ilhas de S. Tomé e Príncipe durante três anos, sendo-lhe atribuída a missão de averiguar se há ou não trabalho escravo na referida colónia e convencer o cônsul inglês de que o trabalho escravo em Portugal já faz parte do passado. Aqui se ligam as vertentes históricas e pessoais da obra. Facilmente se conclui que Luís Bernardo terá que enfrentar alguns dos mais importantes produtores de cacau portugueses, não sendo certo que, dada a instabilidade política que existia na época, tenha um apoio total de Lisboa na execução dessa tarefa.
No plano pessoal, esta missão representa, para Luís Bernardo, o fim de uma vida mundana na capital do Império e o princípio de um longo exílio numa ilha distante de todas as partes do mundo. Será aqui que, para ele, o amor se revela. Mas, como em todas as coisas na vida, também o amor nem sempre é certo. Um dos pontos mais fortes desta obra é, precisamente, o percurso individual (no sentido interior) do personagem central, Luís Bernardo.

 

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6 thoughts on “Equador – Miguel Sousa Tavares

  1. Este é o meu livro preferido de Miguel Sousa Tavares.
    Gostei um pouco menos de Rio de Flores e adorei “No Teu Deserto” lê-se em duas horas, achei muito poético.
    Um abraço.

  2. Nuno, escrevi mal o meu mail e a minha “foto” aqui no página a página mudou
    Não sei se consegues resolver isto 😦 ou não tem importância e da próxima tenho mais atenção 🙂

    Um abraço

  3. Outro autor que nunca li e que não sei se vou ler algum dia. Mas esta frase encaixa perfeitamente na minha última leitura – “Claraboia” de José Saramago: “dá vontade de que não acabe por ali… mexeu comigo ( Para mim estes são os bons livros… aqueles que nos deixam a pensar… e a querer mais)”.

    1. Offuscatio, recomendo-te sem reservas Equador, o facto de MST não ser dado a grandes simpatias pela forma como manisfesta muitas vezes os seus pontos de vista, leva a quem nunca leu um trabalho seu a retrair-se, mas garanto-te é um romance de se lhe tirar o chepáu, e não te deixes ir atrás da série que esteve no ar. O livro é de facto muito bom.

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