Mala de Senhora e Outras Histórias – Clara Ferreira Alves

mala-de-senhora-e-outras-historiasMala de Senhora e outras Histórias. trata-se de um livro de pequenos contos independentes, originalmente publicado em 2004 e que segundo a jornalista/Escritora em Portugal este continua a ser um género de literatura menor; sublinhando ainda que: «Na verdade, contar contos e histórias é um dos sinais da literatura, e o que não se consegue fazer em pequeno, jamais se conseguirá fazer em grande».

Na globalidade apreciei bastante a escrita e a qualidade dos contos mas também a forma clara, mordaz, incisiva e na maioria das vezes assertiva e na forma como isso passa para o leitor. Recomendo

1.  O COLECCIONADOR

 Trata-se de um pequeno conto com pouco mais de 12 páginas,  e em que fiquei de (olhos arregalados) pensando «não vou gostar disto» pelo simples facto de ser um leigo em matéria de arte, visto que a autora é descritivamente abundante na enumeração das obras e nos nomes dos grandes mestres da pintura (por exemplo) embora conheça alguns… fiquei logo de pé atrás mas qual não foi o meu espanto, quando cheguei ao final previsível desta pequena história e me arrepiei, embora estivesse ciente de ante-mão que seria este o seu desfecho. O conto retrata dois homens tio e sobrinho: o primeiro um velho aristocrata arruinado, o segundo um escritor frustrado que toma conta do seu parente. em Paris num café ambos travam conhecimento com uma senhora e desenvolvem uma conversa em torno da pintura. posteriormente numa visita que a senhora faz à mansão do homem mais velho é guiada por este na observação da sua vasta colecção de obras de arte, mas…. (não irei então contar o resto da pequena história) para quem não leu este conto recomendo. para quem já conhece sabe do que estou a falar. Surpreendi-me, pois não estava a espera de gostar tanto. por vezes são estas pequenas histórias que nos fazem pensar um pouco mais naquilo que é verdadeiramente a essência do ser humano.

2. O CONTO E A HISTÓRIA

5 páginas chegam para a autora transmitir aquilo que quer: Um homem com hábitos bem vincados, recentemente viúvo, não tem amigos, vê de repente chegado o dia da reforma, não gosta de televisão, nem da mesa do café, viajar nem pensar! dedica-se então diariamente a contar as mortes que são anunciadas no jornal, que passa regularmente a comprar; homens,  mulheres, crianças, enfim mortos. até que um dia ao sair de casa… este pequeno conto faz-nos reflectir, para que serve afinal a vida e o que realmente queremos fazer com ela.

3. LOVE ONLINE

No dia 13, às 13:30h, do ano de 2013, uma mulher chega a casa e pensa em suicidar-se, sem pais, sem marido, sem ninguém, vive uma solidão num tempo em que os homens cada vez mais se desinteressam das mulheres, em que as relações, não são o que eram antigamente, inclusive o sexo, já não se faz corpo a corpo; é tudo virtual, a mesma mulher marca encontro com um suposto australiano, que teve a infelicidade de cometer um erro: envolver-se numa relação, chegando ao local do encontro tem uma desagradável surpresa. .. Este conto leva-me a pensar (e isso já acontece hoje em dia) nos ditos encontros que se dão por conversas em salas que existem para o efeito no vasto mundo cibernético, em que cada um é o que não é; ninguém tem nome, e toda a gente é alta loira e de olhos azuis, a vida às vezes pregamos partidas.

4. STRADA NUOVA

Um diplomata viajado e culto, homossexual frustrado, desde que se divorciou de uma  mulher que bebia demais e sempre o detestou, retira-se para Veneza onde resolveu que tinha o dinheiro suficiente para parar de fingir que gostava de trabalhar. Diariamente repara que entram e saíem várias vezes do hotel um estranho casal; ele bem mais velho que ela… Strada Nuova,  faz pensar até onde vai a personalidade humana. até que ponto conseguiremos manter as aparências?  ou até que ponto temos de nos submeter a certas situações em prol de determinado estatuto ou aparência.

5. O SONHO

Uma mulher senta-se na cadeira de um psico-terapeuta e começa a contar um sonho que teve, com 3 homens, o Pai, o ex- marido e o filho que morreu. Este conto, leva-nos a reflectir um pouco nos nossos fantasmas, nas nossas histórias… naquelas histórias que nos aconteceram e nos marcaram para sempre. até que ponto vivemos com elas, sonhamos com elas, e até que ponto elas decidem o rumo da nossa vida, seremos capazes de as superar, ou simplesmente convivemos com elas e deixamos que nos dominem?

6. VIRA O DISCO E TOCA O MESMO

Um homem está sentado, numa cadeira no meio do palco. À frente dele, uma mulher de pé, rodeada de duas cadeiras, uma de cada lado dele. Está a olhar em frente dele, a olhar para ele. Em cima de uma cadeira está uma cabeleira loira a outra está vazia. A mulher senta-se na cadeira vazia (entre o por e o tirar da cabeleira) o leitor não sabe se está numa plateia assistindo a uma peça, se está no sub-consciente do homem, ou no sub-consciente de ambas a mulheres que conversam com ele, gritam com ele, imploram, cada uma com os seus motivos, tão diferentes e tão iguais. as Mulheres são a Legítima e a Amante.

7. SAUDADES DE MIM

«O meu nome é Marco, agora sabe quem eu sou e porque estou aqui» é assim que começa mais este conto incluído no livro Mala de senhora e outras histórias. A acção desenrola-se no ano 2040, após a falência da Segurança Social,  e do Sistema nacional de Saúde, Mateus visita o seu amigo psiquiatra e dá de caras com Marco, fechado naquele hospício há 40 anos, foi no seu tempo, muito conhecido por ter participado num programa de televisão em que homens e mulheres eram fechados numa casa eram filmados 24 horas por dia, ate ao dia em que marco se passou e espancou uma colega no programa, foi obviamente expulso (…) não soube lidar com a situação e ali foi parar. Este conto leva-nos a pensar na fama, no estrelato e na ascensão repentina, de cidadãos anónimos, que vêm as suas vidas modificadas do dia para a noite, não estando minimamente preparados para aquilo, são verdadeiros hoje e amanhã?… amanhã já ninguém se lembra deles. As suas vidas nunca mais serão as mesmas.

8. LOURO RICO LOURO POBRE

Dois Louros, um rico, um pobre frequentam um ginásio, ambos se fazem às miúdas, um conta histórias se sítios que já visitou sem nunca lá ter estado, o outro esteve realmente lá,  um tem um saco que diz  Makro-Fixe, o outro um saco da Nike, comprado na Niketown em Nova York… uma disputa de classes sociais hilariante… mas quem levará a melhor?

9. O 25 DE ABRIL NUNCA EXISTIU

E se o 25 de Abril nunca tivesse existido? ou melhor e se o 25 de Abril, tivesse acontecido anos mais tarde? como teriam sido as coisas? uma verdadeira paródia Queirosiana ao dia da revolução, nomes bem conhecidos (trocados) da nossa história recente, compartilhadas por Manuel Dias Boavida o personagem condutor deste conto, também conhecido na redacção do Expresso como Dias à Vida.

10. OS DIAS DE DURBAN

Álvaro viaja até à cidade de Durban na África do Sul, e chega à procura de um fantasma, que tem em comum consigo o nome Álvaro de Campos, uma Pessoa como ele… ou melhor Fernando Pessoa, uma Viagem ao passado, percorrendo todos os passos que o Solitário Pessoa poderá ter dado enquanto passou a sua infância naquela cidade…. impressionante conto, que merece ser lido e reflectido.

11. CONVERSA DE GAJAS (ALL ABOUT EVE)

Hilariante este conto; uma famosa escritora com carreira solida, acaba por contratar uma saloia, que mais tarde se apodera da sua pessoa, das suas roupas, da suas palavras da sua escrita… do seu marido, perdão o Ex-marido, actual marido da saloia, uma história sobre uma alpinista social, sobre a inveja e a dor de cotovelo e de como de desmoronam os grandes castelos… enquanto outros se erguem.

12. MALA DE SENHORA

A carta chegou de manhã, vinha dirigida à mulher, a mala estava pronta… a mulher que entretanto faleceu (cancro) o marido, aquele que nunca foi fiel, em tanto anos, comprava objectos para ela substituído o amor, comprava sexo com outras e tudo aquilo que o dinheiro poderia comprar. dinheiro nunca foi problema. mas isto? seria uma brincadeira?… tocante conto talvez o melhor deste livro, que nos faz pensar um pouco que nunca é tarde para reparar erros, que só quando chega a perda, nos apercebemos de quão importante é aquilo que desperdiçamos… ou não…

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