Os Filhos da Droga – Christiane F.

No mês de Maio festejei o meu aniversário. A minha mãe deu-me um beijo e uma nota de cinquenta marcos. Este dinheiro ela tirou das economias da casa. Ela disse que devia comprar algo que me desse verdadeiramente prazer. À noite fui à Kurfürstenstrasse e comprei quarenta marcos de heroína. Nunca tivera tanto de uma só vez. Depois comprei seis marcos de cigarros (tornei-me uma fumadora inveterada, capaz de acabar com um maço em duas ou três horas). Sobraram-me quatro marcos para o Sound. No Sound encontrei o Detlef, que me beijou carinhosamente e me desejou feliz aniversário. Dei-lhe também os parabéns, pois o seu aniversário fora dois dias antes do meu. Ele estava um pouco triste porque os seus pais não lhe tinham desejado um feliz aniversário. Somente a sua avó. Com toda a certeza ele era mais infeliz que eu. Tentei consolá-lo: — Não ligues meu querido. — Mas tinha um presente genial para ele: algo para se drogar. Tinha heroína (…). Após a nossa pequena festa de aniversário (uma enorme aspiradela para mim e uma boa picada para Detlef), agora estávamos verdadeiramente juntos.”

Não sei bem situar no tempo a primeira vez que li este “Os Filhos da Droga” (mas penso que terá sido por volta de 1986 ou 87) tinha  idade sufiente para o ler, mas não tinha idade suficiente para o entender ou para o levar a sério. (pelo menos do ponto de vista em que foi escrito) Quando o li pela primeira vez frequentava já o ensino Preparatório (Actual 2º ciclo) e pelo menos para mim e para os meus amigos e colegas de então, acredito que o mais parecido com “pisar o risco” estava numas escapadelas às traseiras do grande pavilhão de ginástica para dar uns “bafos” num cigarro que surripiávamos aos nossos pais ou então fumar e cuspir uma coisa a que chamáva-mos de “Mata-Ratos” de uma marca creio chamada Kentucky uns cigarrinhos anões sem filtro (e muito maus) Os mais atrevidos levavam um simples saco de plástico transparente e pequeno, onde era colocada a famosa cola Patex (que servia sobretudo para colar as solas dos sapatos) que “cheiravamos” (ainda não se dizia “Snifar”) e ao fim de uns quantos inalamentos surgiam umas tonturas em que os mais resistentes não desmaiavam ou vomitavam e eram os grandes herois.

Nessa altura seria impossível dar qualquer tipo de crédito á história de Christianne F. nem em termos de aprendizagem fosse do que fosse e muito menos no aspecto literário. Embora seja da opinião (ao contrário de muitas) que este livro não pretende e não serve para tirar qualquer espécie de lição ou de aprendizagem. Christianne F não é exemplo para ninguém e o facto de um adolescente pegar na sua “história de vida” e com ela declinar o consumo de qualquer espécie de estupefacientes é uma utopia.

Mais tarde, julgo que por volta de 1995 ou 96, numa altura em que “obrigatoriamente” fazia várias viagens de comboio Lisboa-Entroncamento e vice versa, e foi um tempo em li bastante voltei a pegar nesse livro que me foi emprestado pela minha querida amiga Ana Morais mas lembro-me de o ler muito pausadamente e de forma deprimida.

Depois dessa altura devo ter pegado mais duas vezes nesta história (não sei muito bem porquê, visto que a conheço de trás para a frente) a última das quais penso que já depois do ano 2000.

Como é sabido a jovem Christianne F. não escreveu (no sentido literário) este livro, foi uma narradora da sua própria história, que ao leitor parece muitas vezes longa, deprimente e repetitiva, tão repetitiva como a descrição das várias doses de heroina e os comprimidos de LSD que Christiane tomava ou das inúmeras vezes que Christiane teve de se prostituir para se poder drogar, (julgo que essa era a ideia) Um vicío é algo repetido e continuado e como tal, difícil de eliminar.

Ainda à pouco tempo ouvia atentamente a conversa de duas pessoas que creio terem aproximadamente a minha idade, precisamente acerca deste livro “Os Filhos da Droga” e em que uma delas contava á outra a sua aventura literária pelo mundo de Christiane e Detlef  e que a sua leitura deveria ser obrigatória a todos os adolescentes. (nada mais errado!)

Aceito que se incentive à leitura (deste ou de outro qualquer livro) mas nunca obrigar, muito menos um livro como este.

Para finalizar este artigo que foi um pouco mais além da habitual opinião de leitura, “Os Filhos da Droga” é um livro algo complicado de opinar precisamente pelo tema delicado e infelizmente muito actual que aborda. Um livro real e demaiado realista de um flagelo que atinge milhões de jovens.

Para terminar existe um blogue inteiramente dedicado a Christiane F. e ao seu namorado Detlef e que fala também sobre a morte da jovem Babsi e dos restantes companheiros do grupo em: Detlef e Christiane.

CLASSIFICAÇÃO: (a que lhe quiserem dar)

Anúncios

One comment

  1. Li este livro já lá vão anos, penso que teria 11/12 anos. Penso que o devemos aconselhar aos nossos filhos, mas devemos também explorar a história com eles, se lerem em idade tão tenra.

    Estás a ler “O Físico” eu ADOREI este livro!!
    Fico à espera da tua opinião 😉
    Abraço

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s