Desgraça – J. M. Coetzee

VENCEDOR MAN BOOKER PRIZE 1999

DESGRAÇACostuma dizer-se que: «um azar nunca vem só» que o diga David Lurie o protagonista de Desgraça, um livro que me causou alguma estranheza no início e que me deixou um pouco sem saber o que dizer ou pensar já na recta final. (a última vez que me aconteceu algo semelhante com um livro foi à relativamente pouco tempo com «Sputnik meu amor»)

David Lurie um professor já na casa dos 50, vive sózinho e “conformado” com o seu modo de vida e profissão. Não gosta de dar aulas, apenas o faz por obrigação e necessidade e é ignorado pelos seus alunos como se fosse invisível. Recorre a prostitutas para «enganar» a solidão e sobretudo para se enganar a si próprio. Acaba por envolver-se demasiado com Soraya uma “prostituta nas hora vagas” que se escandaliza quando as turistas mostram os seios. A relação de Lurie com Soraya é quebrada quando o professor se intromete demasiado na sua vida “pós-laboral”  David sente inveja da vida de Soraya da vida dos seus filhos e de um marido que nem sequer conhece. David Lurie não tem vida própria, não tem ninguém, não tem nada.

Lurie aproxima-se de Melanie Isaacs uma jovem de 20 anos e sua aluna. Envolvem-se sexualmente e afectivamente durante algum tempo até que o caso se torna público e desmorona por completo a vida do professor.

Julgamos rapidamente conhecer David, quer pelo seu comportamento e atitudes, quer pela “perseguição” à jovem Melanie. uma verdadeira obsessão.

Tenho lido várias opiniões acerca deste livro e principalmente neste ponto quase todos são unânimes: David é  um pervertido cinquentão que engata meninas adolescentes ou prostitutas, um verdadeiro predador perigoso que convém a todo o custo manter afastado. Até certo ponto as suas atitudes doentias revoltaram-me bastante, mas à medida que a narrativa vai avançado a imagem de Lurie vai mudando… o que me fez voltar atrás e deixar de concordar com algumas opiniões acerca deste personagem.

Não considero David Lurie um predador, pelo menos neste contexto o de um homem que abusa sexualmente de adolescentes.

Pelo menos no que diz respeito a Melanie, ele seduz mas também é seduzido. Nunca obrigou a jovem a fazer nada que não estivesse disposta a fazer, e sendo ela maior de idade…

 Mas efectivamente nesta parte da narrativa o protagonista consegue ser detestável pelo facto de “perseguir a sua presa” na altura em que decide quebrar o limite do razoável ao aceder ao ficheiro de dados da jovem e descobrir o seu contacto. David está obsecado com Melanie. (é ele quem manda! ela apenas obedece – pág. 28) No entanto como já referi acabamos por conceber uma ideia acerca do professor… mas apercebemo-nos mais tarde que o autor só nos deixa pré-visualizar aquilo que bem entende.

David Lurie aceita todas as acusações que lhe são feitas e é demitido. Nesta parte do livro é bem demonstrada a hipocrisia dos seus colegas.

Decide então visitar a sua filha Lucy que vive no interior da África do Sul e é proprietária de uma “quinta” isolada onde esta vive da agricultura e se dedica também a receber cães que na sua maioria acabam por ser abandonados pelos donos.

A estadia de Lurie acaba por prolongar-se e este numa espécie de castigo vai executando as tarefas da quinta e ajudando a filha.

Até que um dia algo de muito mau acontece… (não irei aprofundar para quem ainda não tenha lido o livro não perder a surpresa) quem já o leu sabe do que falo. Numa África do Sul pós-apartheid não é muito difícil de descobrir.

A partir desse momento a vida de Lurie quase que se transforma e ele entra num caminho sem volta, numa verdadeira redenção (pelo menos é isso que parece) será?

Gostei bastante do final do livro, pois ao contrário daquilo que o leitor espera tudo fica em aberto, nada fica decidido. O episódio com o cãozinho deficiente foi para mim muito comovente e deixou-me a pensar se tal como o cão, David decide “seguir em frente” ou continuar conformado com a sua desgraça.

SINOPSE:
David Lurie é um  professor universitário de meia-idade, divorciado, que divide  o seu  tempo entre o desânimo das aulas e as satisfações momentâneas que lhe   proporciona uma prostituta chamada Soraya. Quando a prostituta deixa de o   atender, David dirige a sua atenção para uma jovem aluna, com a qual  terá uma  arriscada aventura. A denúncia da relação provocará um  autêntico naufrágio  existencial, que começa com a humilhação pública e o  afastamento do cargo.  David procura então a sua filha Lucy, que vive  numa quinta numa zona rural,  longe da Cidade do Cabo. Mas a desgraça  continuará a persegui-lo…

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9 thoughts on “Desgraça – J. M. Coetzee

    1. Olá Paula, este template é um pouco confuso sim, mas os comentários na parte branca são num lado e na parte azul, que são posts mais antigos são noutro. 🙂

  1. “Não considero David Lurie um predador, pelo menos neste contexto o de um homem que abusa sexualmente de adolescentes. Pelo menos no que diz respeito a Melanie, ele seduz mas também é seduzido.” Concordo com a maioria daquilo que disseste, mas nesta temos visões muito diferente. Predadores não são apenas os abusadores no sentido mais estrito do tema e quando ao facto dele também ser “seduzido” psicólogos apontam vários casos em que este pervertidos pensaram exactamente isso, sem que as vítimas tivessem qualquer comportamento que os incentivasse.

    1. Olá Vitor, concordo com o teu ponto de vista, e provavelmente não consegui fazer vingar o meu, visto apenas querer dizer que Lurie não é aquele tipo em que geralmente pensamos. Um abraço.

  2. Olá 😉 Agora já posso deixar aqui o meu comentário sobre o livro. Tal como tu, tive dificuldade no inicio do livro, até pensei: Porque é que gostam tanto disto? Mas passou rápido, tal como tu sou da opinião que ele não estava sozinho com a ideia de ter relações sexuais com a jovem. Porque aos 20 anos elas já sabem muito e já não são adolescentes. Principalmente naquela parte em que é ela que vai ter com ele e fica na casa dele durante um tempo, sem sabermos bem porquê.
    E o final estranho e diferente do habitual também me deixou deliciada tendo em conta que a vida é mesmo assim, CONTINUA e não se sabe como e onde nos leva.

    Adorei a tua opinião! Disseste Tudo 😉

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