O povo saiu à rua num dia assim

Ao contrário de uns quantos políticos, os mesmos políticos que nem sequer tiveram coragem de abrir a boca para dizer uma única palavra sobre as imagens que ficarão para história deste país. Um cenário de União Nacional, como há muito não se via.

É impossível ficar indiferente aos milhares de Portugueses que mostraram ontem que pacificamente e todos juntos podemos fazer e mostrar a diferença. Parece que Portugal acordou finalmente do coma profundo que durava à 38 anos. Espero que não voltemos a cair na dormência na permissão passiva a que deixámos chegar Portugal.

Ontem 15 de Setembro de 2012, foi o dia em que o meu desapontamento e tristeza pela situação em que a minha vida e estado do país se encontram, estremeceu e quebrou. Ontem o nome de Portugal voltou a ouvir-se.

Espero que os “Portugueses adormecidos” se lembrem e acreditem que a Nação Valente e Imortal ainda não desapareceu. Contudo como disse Fernando Pessoa: ” Falta cumprir-se Portugal”.

Encontrei um artigo escrito pela advogada Maria de Deus Botelho a que não consegui ficar indiferente e que gostaria de partilhar convosco. Um texto que me voltou a encher de orgulho e que lembrou quem sou, de onde sou e para onde gostaria que fosse o meu país. Obrigado a todos os que saíram à rua. Viva Portugal.

O povo saiu à rua num dia Assim

Maria de Deus Botelho

Sabes, Avô, hoje fui até à Avenida dos Aliados, no Porto. Fui juntar-me a tantos que, como eu, não quiseram ficar em casa desta vez e preferiram ser parte activa nesta luta por um país mais justo, um país mais solidário. Éramos tantos, Avô… Um mar de gente, de todas as idades. Vi crianças da idade do teu bisneto que não chegaste a conhecer, vi velhos da idade que terias hoje se a vida não te tivesse levado antes do tempo. Cruzei-me com homens e mulheres que podiam ser meus pais, que seguramente sacrificaram tanto para darem aos filhos a educação que muitos deles não tiveram e que, agora, os vêem sair do país em busca de um futuro que, aqui, já não têm.

Estavam lá gerações inteiras, Avô. Pais que levavam os filhos e filhos que levavam os pais. Avós que se apoiavam nos netos e netos que estavam ali também pelos seus Avós. Todos em luta serena e pacífica.

Fomos pacíficos mas não fomos silenciosos. Ouviram-se cânticos, gritaram-se palavras de ordem; bateram-se palmas e lançaram-se assobios; cantou-se o Hino, Avô, A Portuguesa, que sempre te encheu o peito. Empunharam-se cartazes com dizeres mais ou menos criativos. Tudo feito por gente que se recusa a desistir, que renega a resignação, que insiste em lutar.

Hoje, Avô, eu fiz aquilo que me ensinaste toda a vida: ergui bem alto a cabeça e exigi os direitos por que tanto lutaste. Hoje, a minha voz também se fez ouvir, contra o exagero, contra o sacrifício desmesurado, contra o retrocesso. Hoje, fui verdadeiramente tua neta: um soldado na luta incessante por um futuro melhor, mais digno, mais verdadeiro.

Foi o começo, Avô. Será preciso muito mais, será necessário ser muito melhor. Mas hoje, Avô, eu fiz aquilo com que sonhei tantas vezes: eu comecei mesmo a mudar o mundo.

Se cá estivesses, provavelmente ter-me-ias pedido cautela; assim, vieste comigo e a tua voz foi a minha voz, a tua força foi a minha força. Foi quando te senti em mim que me lembrei do cântico que tantas vezes cantámos no jardim da casa da aldeia: “…o povo é quem mais ordena…”. Também se cantou, Avô. Bem alto, como deve ser. O povo saiu à rua. E fez-se ouvir.

(Via Público)

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