O Último Minuto na Vida de S. – Miguel Real

o ultimo minuto na vida de sQuer se goste ou não, Francisco Sá Carneiro é sem sombra de dúvidas uma das grandes figuras do Século XX Português, esta pequena novela de Miguel Real vem dar uma visão um tanto ou quanto  cor de rosa ao caso, mas ao mesmo tempo a visão consegue se tão realista e crua, que por vezes, senti arrepios e quase no final, uma sensação de aflição e impotência… parece um um contra-senso? mas é verdade.

Foi o primeiro livro que li de Miguel Real e fiquei muito agradado com o que li.

Confesso que Sá Carneiro como político a mim não me diz muito… ao contrário de uma “certa maioria” que ainda hoje acredita que se o terrível acidente que vitimou o na altura 1º Ministro de Portugal não tivesse acontecido, o estado a que infelizmente chegámos  não teria sido o mesmo. Que me desculpem os seus entusiastas mas acredito que a maior das qualidades de Sá Carneiro (enquanto político) foi ter morrido cedo de mais… Se era ele o tão aguardado D. Sebastião, nunca saberemos.

À volta de Sá Carneiro, nasceram e cresceram mitos e crenças que foram aumentando com o passar dos anos. Teorias da conspiração que ainda hoje deixa muita gente desconfortável. No entanto acredito piamente que o homem que foi Sá Carneiro acreditasse que seria capaz de mudar o rumo das coisas, talvez fosse um sonhador e com vontade suficiente para mudar e modernizar Portugal, corajoso e determinado, acredito que as suas intenções seriam com certeza as melhores. Mas a sua vontade não chegaria (como não chegou) para mudar as mentalidades, pouco abertas da altura. Quanto ao atentado que o vitimou, também eu tenho as minhas teorias… Sá Carneiro, decidiu à última da hora, ir ao Porto, apoiar o “seu” (e apenas seu) candidato Presidencial, contra Ramalho Eanes. Tenho a certeza que a história de Sá carneiro teria sido diferente se não estivesse à hora errada, no sítio errado. Quanto a “nós” não teria sido muito diferente daquilo que foi. (bem mas vamos falar do livro, pois acho que já estou a falar de mais de assuntos que com certeza não vos interessa nada).

Snu Abecassis, ou S. como nos é apresentada neste pequeno livro (com uma nacionalidade diferente, mas uma história quase igual) S. “A Outra”. Mesmo hoje passados tantos anos desde a sua morte Snu será sempre a outra, a estrangeira. No entanto Snu, entendeu provavelmente muito melhor Portugal e os Portugueses, do que muitos de nós.

A novela é contada por ela própria, como se estivesse sentada mesmo ao nosso lado, num tom intimista e por vezes jeito de confissão, vamos conhecendo a sua vinda para Portugal, a sua história, os seus amigos e o aspectos mais e menos importantes de um Portugal atrasado. Um Portugal, que muitos acreditam já ter desaparecido. (Creio que ainda sobraram uns resquícios).

Pela boca e pelos olhos de Snu, vamos tomando conhecimento dos meandros e podres do poder. Da terrível guerra colonial e da visão mesquinha e interesseira de uma certa burguesia para com os mais desfavorecidos. Uma história que vai em vem quase em flashback , desde o o seu último minuto. As suas ambições, os seus desejos, a sua frustração, as suas alegrias, as suas tristezas, são nos descritas de uma forma irónica. A ironia e um certo tom jocoso, deixam adivinhar o que muitas vezes estaria a passar pela cabeça de S. acerca de nós Portugueses.

Quanto ao final… (que já todos conhecem é deveras angustiante). Este pequeno livro é de facto um belíssimo livro. Uma excelente entrada no mundo de Miguel Real. Gostei, recomendo e quero ler mais deste autor.

SINOPSE:
Ela era bela, divorciada, escandinava, culta. Chegara a Lisboa em princípios dos anos 60 e Portugal era para ela o país mais arcaico da Europa. Ele era português, casado, político, primeiro-ministro. Apaixonaram-se e amaram-se intensamente, contrariando códigos políticos e sociais. Morreram ambos, abraçados, na explosão de uma avioneta em viagem para o Porto.

Ficção, O Último Minuto na Vida de S. é a história do último grande amor português, o de Snu Abecassis e Francisco Sá-Carneiro. Cruzando um estilo ora satírico-jocoso, ora realista e apoiando-se na realidade portuguesa entre as décadas de 60 e 70 em três ou quatro factos verdadeiros, visa retratar um Portugal que já não existe, o Portugal desaparecido nas duas décadas seguintes pela voragem dos costumes europeus.

Miguel Real, pseudónimo de Luís Martins, nasceu em Lisboa em 1953 e é sintrense por adopção. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta com uma tese sobre “Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa”, estando neste momento a preparar um doutoramento sobre a mesma temática.
Professor de Filosofia no ensino secundário e especialista em Cultura Portuguesa, possui uma vasta obra dividida entre o ensaio, a ficção e o drama (neste último género sempre em colaboração com Filomena Oliveira).
Em 2001, foi bolseiro do programa “Criar Lusofonia” do Centro Nacional de Cultura, tendo, ao abrigo dessa bolsa, percorrido o itinerário do Padre António Vieira pelo Brasil. Dessa viagem trouxe um diário, publicado em 2004, e material para um romance – “O Sal da Terra” — a publicar aquando da comemoração dos 500 anos do nascimento do jesuíta luso-brasileiro, em 2008.  (Fonte: Portal da Literatura)

Autor de dezenas de livros, publicou na QuidNovi os romances A Voz da Terra e O Último Negreiro, a novela O Último Minuto na Vida de S. e os ensaios O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa, O Último Eça, Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa.

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2 comments

  1. Suponho que quando escreveu “acredito que a maior das qualidades de Sá Carneiro (enquanto político) foi ter morrido cedo de mais” quereria talvez dizer algo como “acredito que as qualidades de Sá Carneiro (enquanto político) serão sempre tidas em consideração exageradamente, por ter morrido cedo de mais”.

    Se era isto, a frase, como a escreveu, saiu-lhe mal… A frase, como está é susceptível de ser interpretada de um modo bastante diferente. Como se quisesse depreciar o Sá Carneiro. Queria fazê-lo?

    Quanto à suas teorias, pois tem todo o direito a elas, evidentemente. Mas eu acho que “nós” estaríamos bem diferentes. Talvez o regabofe nunca tivesse chegado onde chegou. Enfim… teorias.

    Algo me diz que o Nuno nasceu depois do 25 de Abril. Acertei?

    Cumprimentos.

    1. Olá Pericles. Por vezes a intenção de querermos fazer ver as coisas por um determinado prisma, sai ao contrário. Ou por vezes ser ser mal interpretada, Mas o Pericles entendeu claramente o que tentei dizer, talvez a frase tenha mesmo saído mal. Mas… sem dúvida que houve algum exagero após a morte de Sá Carneiro e sobre o que ele poderia ter feito e não fez, por vezes de tal forma exagerada, que muitas vezes ficamos com a sensação que era ele o verdadeiro Salvador da Pátria. (penso que neste ponto concordamos).
      Não quero de forma alguma depreciar Sá Carneiro, que como referi tenho a certeza de que era corajoso (talvez até em demasia) e que acreditava claramente que as suas escolhas e opções seriam acertadas.
      No caso da minha teoria, acredito que esteve realmente no sitio errado à hora errada, com certeza que com o seu conhecimento, o ministro Amaro da Costa andou tempos antes a levantar a tampa de algumas panelas, que porventura continham algo mal cheiroso. Continuo a acreditar que seria apenas e só um aviso para Sá Carneiro não permitir que alguém andasse a enfiar o nariz onde não era suposto cheirar (creio que entende). Ninguém poderia prever que Sá Carneiro decidisse à última da hora enfiar-se ali dentro.
      Quanto à sua premonição acerca da minha data de nascimento… está correcta… Nasci precisamente no 25 de Abril. O que não quer dizer que não entenda ou pelo menos tente entender o que se passou. É bom discutir não só livros (que são a essência) deste blogue, e que por sinal neste artigo desviou um pouco mais para o lado das opiniões pessoais. Mas é bom discutir diversos pontos de vista.
      Fico à espera de mais conversa. Um grande abraço e Boas Festas.
      E o Pericles como vai de Leituras? 😀

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