Pessoas que gostam de livros, que gostam de pessoas

Num tempo onde cada vez mais as relações e o convívio se processam e desenvolvem à distância e de forma virtual, aparecem de vez em quando bolhas de ar fresco, que vêm restabelecer o calor humano a partilha e a amizade física e real.

Foi de novo essa paixão pelos livros, pelos autores e por inesquecíveis histórias, que nos reunimos de novo no Palácio do Contador Mor/Biblioteca Municipal aos Olivais, para mais uma tarde de convívio e de partilha de experiências com os livros. Ao nosso grupo, juntaram-se mais 2 novos membros O Pedro e a Sara a quem saúdo e espero poder continuar a contar com a vossa presença.

Mesmo com uma tarde gelada como a que esteve no sábado, foi sem dúvida uma tarde bem passada, onde houve sempre boas histórias para contar e outras experiências, fora dos livros. (assim de repente lembro-me do “Cal” da Renata, que descambou para a “Cal” da Isabel, que foi sem dúvida um dos momentos altos da tarde e que arrancou valentes gargalhadas por parte de quem estava na aconchegante sala da Biblioteca, que teve uma vez mais a amabilidade de nos ceder o seu espaço. E no próximo mês lá estaremos de novo, com novas estórias e histórias para contar. Bem hajam todos os membros do grupo.

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Aproveito também para partilhar com os “amigos” do Página a Página as sugestões de leitura que saíram deste 2º encontro:

a vida em surdinaSugestão da Márcia:  A Vida em Surdina / David Lodge

Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida. (A minha Opinião na Roda)

uma história de mor e trevasSugestão da Renata:  Uma História de Amor e Trevas / Amos Oz

Farsa e dor, história e humanidade integram este retrato mágico de um escritor que testemunhou o nascimento de uma nação.

Amor e trevas são duas poderosas forças que se cruzam e acompanham a história de Amos Oz, que nos guia numa fascinante viagem ao longo dos 120 anos de história da sua família e dos seus paradoxos.
Um relato impregnado de ruído e fúria, nostalgia, perda e solidão. Em busca das raízes remotas da sua tragédia familiar, Amos Oz desvenda segredos e “esqueletos” de quatro gerações de sonhadores, intelectuais, homens de negócios fracassados, reformistas, sedutores antiquados e rebeldes ovelhas negras. Uma ampla galeria de grotescos, patéticos, ingénuos, trágicos e extravagantes personagens, homens e mulheres, todos eles participantes do cocktail genético e das circunstâncias quase surrealistas do nascimento do homem que um inevitável momento de revelação transforma em romancista. Um relato escrito na primeira pessoa por um homem que testemunhou o nascimento do seu país e que viveu na íntegra a sua turbulenta história. Celebridades históricas materializam-se em personagens autênticos, de David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel, ao lendário líder das organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, passando pelo gigante da poesia hebraica moderna, Saul Tchernichovsky , ou o laureado com o Nobel de Literatura, S. Y. Agnon.

a menina é filha de quem?Sugestão da Paula:  A Menina é filha de Quem? / Rita Ferro

Depois de ter perdido a mãe, em Agosto de 2010, Rita Ferro volta ao passado para saber de si. A viagem é penosa porque as pessoas são as mesmas, mas ela não se reconhece. Quem é aquela menina? Com que sonha? Que espera da vida? O que a defrauda? E como conseguem os seus, tão cheios de regras, ensiná-la a voar? Por ela respondem as memórias mais marcantes: o primeiro amor na Primária, os namorados de Verão, as primas direitas que se ficam num desastre brutal, as vezes que ela própria se cruzou com a morte, os avós públicos e privados, o pai e, sobretudo, a mãe, difícil de chorar pois toda a vida fez rir. Uma viagem que começa nos anos 50 e atravessa toda uma época de escuridão e mansidão, em que a obediência e o mimetismo são encorajados, por onde passam figuras conhecidas de todos nós como Fernanda de Castro, António Ferro, António Quadros, Ruben A., Almada Negreiros, Natália Correia, Ary dos Santos, David Mourão- Ferreira e até Fernando Pessoa.

o teu rosto será o ultimoSugestão do Nuno:  O teu rosto será o último / João Ricardo Pedro

Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu Através de episódios aparentemente autónomos – e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.  Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias – muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras – que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?

herman1Sugestão do Pedro: Herman /  Lars Saabye Christensen

Esta é a história de um cágado chamado Tempo que a maior parte das vezes anda muito lentamente e que, de vez em quando, se esconde, mas é também a história de uma aventura do Zorro cujo fim ficaremos sem saber. É a historia de uma velha senhora com formigas nas pernas e de um homem que se alimenta de cerveja, mas é também a historia do mais alto guindaste do mundo de cuja cabine se avista a China. É a história de como o mundo se partiu em pedaços e de como, posteriormente, se recompôs. Enfim esta é a história de Herman. O que mais impressiona nas obras de Lars Saabye Christensen é a sua capacidade de moldar o discurso em função dos personangens em que se vai centrando. No caso de Herman, uma criança na idade da escola primária, o desafio para o autor foi tremendo: recuperar aquela inocência e lógica infantil de quem ainda está a construir a sua percepção do mundo. É essa perspectiva refrescante e essa descoberta da imensidade do mundo que Christensen transmite ao leitor de forma perfeita.  Na tradição dos grandes escritores nórdicos a escrita de Christensen, aparentemente despida de “enfeites” literários, atinge um nível de depuração linguística mais próximo da poesia que de qualquer outro estilo.  Aquela que parece ser uma história simples sobre uma criança que vive o seu primeiro drama e sofre a primeira rejeição por parte dos que a rodeiam, é um lúcido ensaio sobre a formação da identidade e as relações da criança em formação com a sociedade.  Este romance recebeu o Prémio da Crítica em 1988 na Noruega, na Suécia e na Dinamarca (feito inédito até hoje). O estilo de Christensen e o conteúdo universalista das suas obra levaram a que o autor tenha já sido proposto diversas vezes para o Nobel de literatura.

à espera no centeioSugestão da Sara: À espera no Centeio / J.D. Salinger

A voz do seu protagonista, o anti-herói Holden Caulfield, encontrou eco nos anseios e angústias das camadas mais jovens, tornando-o numa figura icónica do inconformismo. Da mesma forma, os temas da identidade, da sexualidade, da alienação, e do medo de existir, tratados numa linguagem desassombrada e profundamente original, fizeram de The Catcher in the Rye um símbolo da contracultura dos anos 50 e 60. Mas, passados sessenta anos sobre a sua primeira publicação, vendidos mais de 65 milhões de exemplares em quase todas as línguas, e instituído marco incontornável da literatura mundial, À Espera no Centeio mantém toda a actualidade e a frescura da rebelião.

o doutor glasSugestão do Jorge: O Doutor Glas / Hjalmar Soderberg

Nunca vi um verão assim. Um calor sufocante desde meados de maio. Uma pesada nuvem de vapor cobre, o dia inteiro, as ruas e as praças. Só o crepúsculo reconforta um pouco o ânimo. Acabo de regressar do passeio vespertino que faço quase todos os dias, depois de visitar os meus doentes, que não são agora, no verão, demasiado numerosos. Uma brisa fresca e constante sopra de leste, a vaga de calor desprende-se do solo e desloca-se lentamente, transformando-se num grande véu de pano vermelho, que se afasta para oeste. Cessa o ruído dos solavancos das carroças; de quando em quando, ouve- -se somente um fiacre ou a campainha de uma carruagem que passa nos seus trilhos. Percorro vagarosamente as ruas. Aqui e ali, encontro um conhecido, e por um momento paramos os dois à esquina a conversar. Mas porque será que tenho de encontrar, uma vez mais, o pastor Gregorius atravessando o meu caminho? Sempre que o vejo, torna-me à memória uma anedota que, um dia, ouvi contar acerca de Schopenhauer. Uma tarde, quando o austero filósofo estava sentado a um canto do seu café habitual, solitário como de costume, a porta abre-se e ele vê entrar um homem com um semblante desagradável. Schopenhauer observa-o de relance, contrai o rosto num esgar de susto e repulsa, levanta-se e ataca à bengalada a cabeça do intruso. Devido, simplesmente, ao seu aspeto desagradável.

valsa lentaA Sugestão da Isabel : Da Profundis, Valsa Lenta / José Cardoso Pires

“Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca fonte de onde brota o pensamento, ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto. . E, muitas vezes, a agressão, como aquela que o assaltou, deixa cicatriz definitiva, que impede o retorno ao mundo dos realmente vivos. É por isso que o seu testemunho é singular, como é única a linguagem que usa para o transmitir.”
Do prefácio de professor João Lobo Antunes

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4 thoughts on “Pessoas que gostam de livros, que gostam de pessoas

  1. Que óptima iniciativa a vossa!
    Sei que algumas livrarias Bertrand todos os meses marcam encontros como esse.
    Infelizmente, aqui onde vivo esses encontros não acontecem.

    Gostei das sugestões. Muito diversificadas.

  2. A biblioteca tem sempre muito gosto em vos ceder a sala para tão maravilhosa iniciativa. O blog da biblioteca gostava muito de partilhar estas notícias. Entrem em contacto connosco para publicarmos no blog. “bibliotecdosolivais@gmail.com”.
    Obg

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