A Vida em Surdina | David Lodge

a vida em surdina“A Vida em Surdina”, foi o primeiro livro que li no âmbito do projecto Roda dos Livros, que basicamente consiste em fazer circular os nossos livros pelos membros do grupo e depois comparar opiniões e tentar descobrir o que de semelhante ou nem por isso descobrimos em determinada obra, chegando por vezes a reparar em pormenores que passaram despercebidos a quem o leu anteriormente. Uma espécie de leitura conjunta mas em separado, sem prazos, obrigações ou correrias, apenas ao sabor do prazer da leitura.
Este livro foi apresentado num dos encontros mensais do Roda dos Livros pela Márcia (Planetamarcia) que nos leu uns trechos e que na altura não me despertou muita curiosidade, pensei tratar-se de mais um livro inglês, cheio de trocadilhos que ninguém entende por causa das traduções que muitas vezes são complicadas, devido ao estilo muito próprio de certos autores. No mês seguinte e visto que estava um pouco em baixo de forma, o livro que já tinha entrado na “Roda” foi-me literalmente enfiado debaixo do braço, pois segundo a Márcia talvez fosse o livro que eu estava a precisar e ela tinha a certeza de que eu iria gostar. Lá trouxe o tal livrinho da capa amarela para casa e passados uns dias iniciei a sua leitura…
Foi o primeiro livro de David Lodge que li, não conhecia o autor nem o seu género e o que conhecia da estória, eram apenas os trechos que a Márcia tinha lido e a sinopse que li entretanto.
Confesso que entrei na leitura a medo e de pé atrás, mas “encarrilhei”  imediatamente na história e envolvi-me muito rapidamente com os personagens. É o protagonista Desmond que nos conta através de uma notas que vai escrevendo ao computador (uma espécie de diário) pormenores da sua vida; do seu passado do seu presente e sobre as expectativas e os receios que tem em relação ao seu futuro.

O personagem Desmond é um recém reformado (antecipadamente) muito por culpa do seu problema de surdez que teima em aumentar com os anos. Desmond Bates disserta sobre tudo, e ironiza muitas vezes não só com a sua vida mas também com a dos que o rodeiam. Para mim o melhor deste livro, foi precisamente o tom irónico, com que foi escrito, uma sucessão de trocadilhos, que muitas vezes nos fazem voltar atrás e largar valentes gargalhadas. Louvo o excelente trabalho da tradutora Tânia Ganho que o fez muitíssimo bem e que não deve ter sido tarefa fácil.
Entretanto surge a personagem Alex Loom, uma jovem e deslumbrante estudante universitária, que aos poucos vai entrando na vida de Desmond e que vai virar de pernas para o ar a vida calma e rotineira do antigo professor. (nesta altura do livro, lembrei-me por exemplo do filme “Atracção Fatal” e de um outro livro: “Lolita” (mas… para aqueles que ainda não leram este livro apenas vos digo, que vale a pena). Quero ainda lembrar outro personagem magnífico que é o pai de Bates, também ele com problemas de audição, um personagem que vai vendo a sua importância aumentada e que sem dúvida se torna o personagem favorito de quem lê este livro.
O que tem de hilariante esta vida em surdina, tem de comovente e triste, cheguei ao fim, com uma espécie de vazio e com uma certa tristeza em largar o livro, muito por culpa da viagem que Desmond faz à Polónia e posteriormente o caso com que terá de lidar, assim que regressa. E o que dizer mais sobre este livro? que valeu bem a pena ter “rodado” para as minhas mãos, que até ao momento é a melhor leitura de 2013. É um livro que me vai deixar saudades.
Um aplauso para a tradutora deste livro, pois não deve ter sido fácil em determinadas situações, converter o chamado humor Inglês, em algo hilariante.  Excelente.

EXCERTOS:
O «F» é uma consoante fricativa lábio-dental, porque para a proferir, aproximamos os dentes de cima do lábio de baixo e sopramos o ar por entre eles. Também é chamada de contínua porque podemos emitir o som continuamente enquanto tivermos fôlego: fffffffffff – se bem que não faço ideia porque é que alguém haveria de estar interessado nisso, a não ser se tivesse começado a dizer «Foda-se» e de repente se arrependesse (…) – (Pág. 27)

***

(…)  Arranquei a prótese do ouvido direito e com a pressa deixa-a cair, soltando um Foda-se (…) encostei o telefone ao ouvido vazio.

– Estou? – Disse eu.

– É assim que costuma atender o telefone? Perguntou muito ao longe uma voz femenina – «Foda-se» e depois «Estou»? – (Pág. 30)

***

– Os Santos intercedem junto de Deus a nosso favor – corrigiu a Cecilia

–  Porquê passar pelos Santos e não rezar directamente a Deus? – perguntei. – (Pág. 238)

SINOPSE:
Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.

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8 thoughts on “A Vida em Surdina | David Lodge

  1. Li esse livro na sua versão original e na altura fiquei com esse pensamento na cabeça. Que o colega tradutor que pegasse nesta obra ia passar um mau bocado para transpor o melhor possível para Português os trocadilhos do Desmond. Também tenho que concordar contigo quando falas da passagem onde o Desmond visita Auschwitz. Deixa-nos com um nó na garganta de tanta angústia.

    Boas leituras 🙂

    1. Olá Isabel. Obrigado pela tua visita. De facto é um livro que vai ficar na memória.
      A tradutora deste livro, que por acaso também escreve, fez um excelente trabalho. Não conheço a versão original e não me atreveria a lê-la, pois não iria perceber metade do que captei em Português, mas deve de facto ter sido bem penoso o seu trabalho. Fiquei muito agradado com o livro de David Lodge, irei com certeza voltar a este autor.

  2. Bom, não conheço a obra e como tal não tenho muito a dizer.
    Pelas opiniões (tua, da Márcia e da Isabel) parece ser um daqueles livros que ficam connosco muito depois de o termos terminado. Gosto disso. 🙂
    Convenceram-me por completo. Vai para a lista.
    Abraço.

  3. Já o li, finalmente! 🙂
    Foi uma leitura muito agradável e gostei sobretudo das passagens acerca da importância da Linguística e de algumas explicações dadas pelo autor através de Desmond. Embora gostasse de ter lido em inglês para acompanhar os trocadilhos, penso que a tradutora fez um óptimo trabalho na adaptação para português,
    Nos próximos dias, publicarei a minha opinião de forma completa no meu blog.
    Boas leituras!

    1. Olá djamb
      Foi para mim uma agradável surpresa! gostei muito e deixou-me algumas saudades.
      A sua Tradutora (também escritora) Tânia Ganho estará em principio connosco no próximo encontro do Projecto Roda dos Livros

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