Os Favoritos (I)

logo 2013Estreia hoje “Os Favoritos” a nova rubrica do blogue.
De novo com textos de bloggers convidados, à semelhança do que já aconteceu anteriormente (ver rubricas no topo da Página). Mensalmente ou quinzenalmente (depende da disponibilidade), cá estaremos com novos artigos, para falar de livros e de autores, aqueles que para nós, são especiais por este ou por aquele motivo.

E porque o blogue continua a girar no universo das leituras, das palavras, dos livros e dos autores, lancei novamente o desafio a alguns amigos, a criarem alguns artigos para o Página a Página. O mundo livreiro, está em constante mutação, o que hoje é, amanhã poderá não ser… mas existem sempre aqueles que ficam… “Os Favoritos”.
Agradeço à Renata Carvalho, do blogue Roda dos Livros pela disponibilidade de abrir este novo cantinho especial para mim e que possa vir a ser um dos vossos favoritos também.

OS MEUS ESCRITORES FAVORITOS
Por: Renata Carvalho

Ler é, para mim, uma necessidade absoluta. Nasci numa casa onde os livros faziam parte do quotidiano; onde havia a preocupação e o cuidado de transmitir a uma criança pequena o gosto pelos livros e pela literatura, naturalmente, sem imposições nem obrigações. Ler foi, desde sempre, um grande prazer e uma aventura de descoberta, um modo de conhecer e procurar entender o mundo à minha volta.  Não sendo, de modo algum, especialista em literatura, os autores abaixo mencionados reflectem única e exclusivamente o meu gosto pessoal. Críticas, opiniões e recomendações são importantes para ajudar a escolher livros potencialmente interessantes mas, ao fim e ao cabo, tudo se resumirá a um aspecto: ou se gosta, ou não se gosta. Ponto final. E aquilo de que se gosta não é estático, vai mudando ao longo do tempo, à medida que se lêem mais livros e se descobrem novos autores. Agora, chega de conversa fiada e passemos ao que interessa:

1

Os criadores de mundos; ficção científica, especulativa, fantástico, ou outra coisa qualquer que vos apetecer chamar-lhe:

A capacidade de criar mundos mais ou menos mágicos e paradigmas de realidades diferentes daquela a que chamamos nossa é algo que desde logo me fascinou em termos de literatura. Se é certo que estes novos mundos facilmente constituem locais de evasão onde o leitor se refugia das agruras reais que o afligem, também os podemos encarar como espelhos do nosso, como tempos e lugares que reflectem a nossa existência e a nossa natureza mais profunda. Este reflexo nem sempre é agradável, por vezes tais mundos imaginários são ainda mais cruéis do que o nosso, e então temos as “distopias”. Aqui destaco Aldous Huxley e o seu “Admirável Mundo Novo”, George Orwell e o incontornável “1984” e  Margaret Atwood com “História de uma serva”, “Órix e Crex” e  “O ano do dilúvio”. Estes dois últimos livros fazem parte de uma trilogia cujo volume final, recentemente editado sob o título “Maddadam”, ainda não se encontra publicado em português. Não posso também deixar de mencionar Ursula K. LeGuin e as suas obras “Os despojados” e “O Ciclo de Terramar”. Esta última remete-nos para mundos menos pessimistas e marcadamente fantásticos como aqueles criados por Tolkien e por Robert Jordan. Apesar de os ter lido no final da já longínqua década de 80 do século 20, “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit” e “O Silmarillion” continuam a ser, para mim,  expoentes máximos do género fantástico. Por seu lado, a obra de Robert Jordan permanece ainda quase desconhecida no nosso país onde só foram editados os seus 4 primeiros volumes. Esta série de livros, chamada “A Roda do Tempo”, é constituída por 14 volumes e foi uma excelente experiência de leitura pois, a meu ver, a qualidade e o interesse da narrativa foram-se mantendo ao longo de toda a obra. Isto apesar dos 3 últimos livros terem sido escritos por outro autor (Brandon Sanderson) com base nas notas deixadas por Jordan que faleceu antes de conseguir terminar a série. Por fim, dentro de um género mais místico e próximo da cultura celta, gostaria de destacar Juliet Marillier com  “Sevenwaters”, “A saga das ilhas brilhantes” e “As crónicas de Bridei.”

o senhor dos aneis

2

Os “realistas”

Dentro da literatura dita “normal”, ou seja, fora dos géneros mencionados acima, o final do ano de 2012 e, sobretudo, 2013 foram tempos excepcionais de descoberta de novos autores e de tradições literárias até então desconhecidas que  acabaram por ocupar o topo das minhas preferências. O acaso fez-me tropeçar num deles, o israelita Amos Oz; uma súbita e inexplicável atracção por um livro chamado “Uma História de Amor e Trevas” que estava sossegadinho numa prateleira da Biblioteca Itinerante da Rede BLX, proporcionou-me o primeiro encontro com a sua obra. A beleza e o espírito vivo, irreverente, por vezes até algo cáustico, da sua escrita seduziu-me de imediato e a esse primeiro livro seguiram-se outros entre os quais destaco “A Caixa Negra”,  “O Mesmo Mar” e “Cenas de Uma Vida de Aldeia”. As restantes “grandes descobertas literárias” foram feitas através grupo “ Roda dos Livros” e enquadram-se quase todas na tradição literária nórdica. “A lebre de Vatanen” de Arto Paasilinna foi o primeiro romance que li dentro desta tradição e rapidamente percebi que tinha encontrado um novo manancial de autores e livros verdadeiramente extraordinários que lançaram sobre mim um feitiço irresistível e de efeitos duradouros. O estilo simples e directo mas, quase sempre, dotado de grande beleza, a subtileza na abordagem das emoções, o questionar da ordem do mundo e da natureza do ser humano e, em muitos casos, a estreita ligação à natureza, cativaram-me de imediato. Aqui destaco Knut Hamsun, magistral na caracterização psicológica das personagens, e as suas obras “Victoria”, “Fome” e “Pan” e também Halldór Laxness cujo “Gente Independente”  considero, sem dúvida alguma, um dos melhores  livros de sempre. “Paraíso e Inferno” de Jón Kalman Stefánsson, “Arde o musgo cinzento” de Thor Vilhjálmsson, “Garman e Worse” de Alexander Kielland e “Hermann” de Lars Saabye Christensen foram outras leituras imensamente apreciadas e marcantes.

Safed de Reuven Rubin
Safed de Reuven Rubin

3

Aquele que desafia toda e qualquer classificação – Italo Calvino

A obra de Italo Calvino é vasta e dela conheço apenas parte, mas aquilo que mais me fascina neste autor é a sua capacidade genial de se reinventar em cada livro, a sua imaginação absolutamente mirabolante e o seu humor e ironia muito particulares. “Se numa noite de Inverno um viajante”, “Marcovaldo”, “Palomar” e “Todas as Cosmicómicas” foram os primeiros livros que li deste grande autor italiano e seguramente não serão os últimos.

Zenóbia - Pintura acrílico sobre tela de Ítalo Stephan-1998 Zenóbia é uma das cidades invisíveis escrita por Italo calvino
Zenóbia – Pintura acrílico sobre tela de Ítalo Stephan-1998
Zenóbia é uma das cidades invisíveis escrita por Italo calvino

4

Os Autores Portugueses

Sendo uma leitora “compulsiva”, durante mais de 20 anos ignorei praticamente por completo os autores portugueses devido aos “anticorpos” que as leituras obrigatórias do 3º ciclo do ensino básico e do Secundário me suscitaram. Dessa triste época apenas apreciei dois grandes poetas, Camões e Pessoa e mais não digo para não ferir as sensibilidades de ninguém…

Um curso de escrita criativa feito no final do Verão de 2012 veio finalmente reconciliar-me com a literatura portuguesa. Tive então a oportunidade de conhecer  vários autores contemporâneos e de ouvir falar dos novos valores que têm surgido nesta área da cultura. E assim acabei por descobrir uma nova geração de escritores que têm publicado obras muito interessantes e onde destaco Afonso Cruz, o meu preferido entre eles. A imaginação prodigiosa, a sua  grande capacidade para mergulhar nesse “labirinto” que é o ser humano e para trazer à tona as nossas múltiplas faces e o modo original, brilhante e belo como aborda um vasto leque de grandes questões sociais resultam em livros absolutamente fantásticos, inesquecíveis e que nos deixam a suspirar pelo próximo. “Para onde vão os guarda-chuvas”, “Os livros que devoraram o meu pai”, “Jesus Cristo bebia cerveja”, “A boneca de Kokoschka” e os volumes de “Enciclopédia da Estória Universal” foram todos responsáveis por experiências de leitura magníficas e marcantes. Embora pertencente a outra geração, gostaria ainda de referir um  escritor cuja beleza de escrita e enorme consciência social me encantaram, Ferreira de Castro. Estou ainda no começo da descoberta deste autor mas os dois livros que já li impressionaram-me fortemente: “Os Fragmentos” e “A Missão”.

Ilustrações de Afonso Cruz Para onde vão os guarda-chuvas
Ilustrações de Afonso Cruz
Para onde vão os guarda-chuvas

E por agora, é tudo. Estes são os meus autores de eleição, hoje. Amanhã será tempo de descobrir outros que o venham também a ser.

Boas leituras!

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14 thoughts on “Os Favoritos (I)

    1. Olá Djamb, como te disse,(no teu artigo) cá está mais uma forma de aproximar livros, leitores e Bloggers, tem sido uma constante desde o início (Umas com mais sucesso que outras)
      Fica também uma sugestão e um convite: terei todo o gosto, em que participes nesta rubrica, poderás fazer o teu artigo sobre “os favoritos” (os teus favoritos) a publicar proximamente. Hum??? e que tal pensares nisso?

      1. Nuno, claro! Obrigada pelo convite! O que precisarás ao certo que prepare?
        Quando a blogosfera sofre a mudança de que falamos no outro post, este tipo de iniciativas é ouro sobre azul.
        🙂

      2. Sem dúvida Djamb, esta rubrica basicamente quer dar a mostrar os favoritos de cada um, quer sejam livros, ou autores, seja um, sejam muitos e a criação de um artigo de fundo

  1. Viva,

    Antes demais parabéns pela nova rubrica e pelo contributo deixado pela Renata que está muito bom.

    Não gosto muito de distopias, excelentes livros mas não atino, quanto à Ursula é excelente sem duvida, lamentável o que se fez com o Robert Jordan (publicaram por cá apenas 4 volumes), Tolkien o mestre sem duvida e a Juliet é muito boa sem duvida.

    Tenho as Cidades Invisíveis do Calvo por ler, bem acima de tudo e mais importante obrigado pela partilha deste excelente texto.

    Abraço e bjs

    1. Obrigado Fiacha, acima de tudo, o espírito de partilha mantém-se e é mesmo o mais interessante, descobrir novos livros, através das opções de outros leitores, por vezes são muito grandes as surpresas!

  2. Gostei muito do teu texto, Renata! Embora a fantasia não seja muito a minha praia e ainda não tenha lido nada de Calvino, nas outras duas rubricas revejo-me em muito do que disseste. Os nórdicos são, sem dúvida, uma inesgotável fonte de literatura de qualidade, que felizmente começa a conseguir encontrar-se no nosso país. E a nova geração de autores portugueses também tem obras surpreendentes. Claro que, de entre eles, também destaco Afonso Cruz, que nos arranca os pés do chão na primeira página e só nos deixa voltar a pousá-los depois de acabar o livro (e, às vezes, só vários dias depois, como me aconteceu com Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas). A meu ver, os livros dele são um mundo à parte. E felizmente que há mundos à parte para onde fugir de vez em quando…

    1. Obrigado Sónia Maia, pelo teu comentário, Quero ler Afonso Cruz, como já te tinha dito, a minha curiosidade sobre este autor em especial tem aumentado de dia para dia. Não conheço, mas quero conhecer, o bom destes artigos é mesmo descobrir novas coisas ou por vezes sabermos que existem outras pessoas, que gostam muito do mesmo que nós.
      Já sabes que “és a Senhora que se Segue” não já?
      Em Fevereiro, cá estaremos contigo.

  3. Colaboro neste projecto com todo o gosto, Nuno. E estou com alguma curiosidade para ouvir os teus comentários quando leres Afonso Cruz. Até agora ainda não encontrei ninguém que não gostasse dos livros dele!

    1. oh! oh! oh! Sónia… ouvi algo similar, aquando da leitura de Nuno Camarneiro e depois…. Olha não gostei por aí além… veremos.
      Recomendaram-me a boneca de Kokoschka… o que me dizes? devo começar por este??

  4. Muito obrigada a todos pelas palavras simpáticas! Sónia, fico à espera de conhecer os teus autores favoritos… 😀

  5. Eu começaria pelo Jesus Cristo Bebia Cerveja, e depois passaria para a Boneca. Acho o Jesus Cristo mais adequado a uma adaptação à escrita do AC. Se começares pela Boneca, és capaz de te sentir a pairar na twilight zone, mas, mesmo assim, não acredito que não gostes. Renata: me aguarda! 😉

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