Os Favoritos (II)

Estão de volta “Os Favoritos”  a rubrica mensal do Página a Página, com textos de bloggers amigos, que como eu, gostam de deixar as suas impressões do que vão lendo e discutir, livros, leituras e autores.
Desta vez conto com Sónia Maia, da Roda dos Livros, a quem agradeço novamente a disponibilidade para participar, neste desafio.

Por aqui, continuamos a girar no universo das leituras, das palavras, dos livros e dos autores. Desafio aceite, vamos conhecer  “Os Favoritos” da Sónia.

OS MEUS ESCRITORES FAVORITOS
Por: Sónia Maia

Ao contrário do que agora está muito na moda dizer-se, para mim, “ler” não é, por si só, desejável. Ler pode até tornar-se facilmente num pesadelo. Já li muitos livros que detestei, outros que me deixaram indiferente (o que é ainda pior) e outros que deixei a meio por não estar disposta a gastar mais tempo da minha vida com eles. Mas também já li muitos que me encantaram, me fizeram rir, chorar, viver noutros mundos, noutras épocas, compreender outras mentalidades, em suma, alargar os meus horizontes e acabar a leitura um pouco mais completa do que a começara.

 Cada leitura é um diálogo silencioso entre o autor e o leitor, para a qual cada um deles traz as suas particularidades, vivências, sentimentos, tendências e até traumas. O escritor colocou muito de si no livro que escreveu e o leitor, ao explorá-lo, absorve-o através do filtro da sua própria personalidade naquele momento da sua vida. Como em qualquer relação entre dois seres humanos, a compatibilidade e a oportunidade são essenciais para que a experiência resulte. E, se para a oportunidade se podem encontrar explicações pragmáticas, já a compatibilidade é impossível de reduzir a regras racionais. Gostamos deste autor e não daquele, porque este nos tocou e aquele não.

 os  favoritos

É por isto que digo sem qualquer reserva que os autores dos livros que leio são pessoas importantes na minha vida. São eles que criam os ambientes onde me movo durante várias horas por dia, que criam as personagens que me acompanham durante essas horas e com as quais crio maior ou menor empatia; são eles que orientam o curso do meu pensamento enquanto leio e, muitas vezes, que o influenciam muito para lá do tempo de leitura; são eles que constroem o enquadramento onde vai decorrer a minha experiência de leitura, a qual, muitas vezes, é tão enriquecedora como as experiências da vida real; e é através deles que absorvo muitas realidades que doutra forma não conheceria, que interiorizo ensinamentos, atitudes, visões sobre o mundo e me torno, assim, um pouco mais flexível e mais rica.

 Ora, há já bastante tempo que não tinha um ano de tantas e tão compensadoras descobertas literárias como foi o ano de 2013. Mais do que descobrir livros novos, descobri autores que desconhecia e que me surpreenderam muitíssimo, a maioria deles portugueses, alguns até estreantes no ofício da escrita. Quase todos pertencentes a uma nova geração de escritores que está a surgir e a afirmar-se no nosso país, apesar da crise, do desalento, da diminuição do poder de compra, do desinvestimento na cultura. O que só prova que os obstáculos materiais podem abater, mas não conseguem asfixiar o espírito – nem o dos escritores, nem o de quem gosta de ler.

os  favoritos

 A minha primeira referência concreta não pode, de forma nenhuma, deixar de ser para o autor que mais me impressionou este ano (e digo este ano porque só o descobri agora, embora ele já publique desde 2008): Afonso Cruz, escritor, realizador de filmes de animação, ilustrador, músico, produtor de cerveja e, acrescentaria eu, inegavelmente filósofo. Quando, em 2013, o ouvi falar em dois eventos públicos, não lera ainda nada dele. Mas, das duas vezes, fiquei assombrada com a lucidez de pensamento que revelava, com a naturalidade com que enquadrava no discurso referências históricas, religiosas, filosóficas e literárias, com a originalidade das conclusões que tirava, com a clareza com que se exprimia. Não descansei enquanto não li uma obra dele. Comecei por Jesus Cristo Bebia Cerveja, e nunca mais parei. Seguiram-se A Boneca de Kokoschka, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e O Cultivo de Flores de Plástico, este último uma peça de teatro que também tive a sorte de ver em cena. E as expectativas, que já eram elevadas, foram largamente superadas. Não sou crítica literária e não pretendo saber classificar obras, muito menos obras com a complexidade das deste autor; aliás, duvido muito que já tenha sido inventada uma categoria onde elas possam enquadrar-se. Talvez “realismo cândido”? O certo é que a vertente filosófica está sempre lá, mas não sozinha. Anda sempre de mão dada com uma análise perspicaz do ser humano, com uma compaixão desarmante pelas imperfeições das pessoas, com um talento arrepiante para pintar cenários, tanto físicos como psicológicos, e com uma imaginação prodigiosa. São livros que marcam, que não se esquecem, que dá vontade de sublinhar quase da primeira à última linha, não vá algum daqueles pensamentos perder-se e falhar a sua vocação intrínseca de ser lido, relido, citado uma e outra vez.

Revolução paraísoAfonso Cruz conseguiu o feito de roubar a Lídia Jorge o título de meu escritor português favorito. Embora a escrita onírica de Lídia Jorge seja realmente lindíssima – Combateremos a Sombra e, especialmente, o maravilhoso O Vento Assobiando nas Gruas são livros que passaram a fazer parte integrante do meu imaginário -, os livros de Afonso Cruz fazem mais do que encantar, até mais do que simplesmente levar a pensar: abanam o leitor até aos alicerces, levantam-no pelos colarinhos, viram-no de cabeça para baixo, fazem-no girar no ar e depois deixam-no a um canto para tentar perceber o que lhe aconteceu.

 A nova vaga de autores portugueses tem, no entanto, vários outros nomes que merecem destaque pelo que já fizeram e pelo que prometem vir a fazer. Começo por Paulo M. Morais que, com o seu notável Revolução Paraíso, consegue ao mesmo tempo homenagear Eça de Queirós e revisitar o Verão quente de 1975. Continuo incrédula por este livro não ser mais comentado e elogiado. Afinal, haverá coisa mais deliciosa do que o PREC vivido por dois personagens queirosianos, tudo temperado por conversas impagáveis entre protagonistas históricos da altura num sótão de amores ilícitos no Cais do Sodré e por uma escrita a saber a Eça?

Também não posso deixar de referir Cristina Drios e o magistralmente escrito Os Olhos de Tirésias, Sandro William Junqueira e o  a velocidade dos objectos metálicosdesconcertante Um Piano Para Cavalos Altos, Tiago R. Santos e A Velocidade dos Objectos Metálicos (cujo subtítulo poderia ser “No Tempo em que Deus Falava”), Bruno Vieira Amaral e As Primeiras Coisas, David Machado e o Índice Médio de Felicidade… todos eles autores que se me infiltraram por debaixo da pele, proporcionando-me momentos ímpares e deixando-me com vontade de ler mais de cada um deles.

Aguardo com expectativa a oportunidade de ler Joana Bértholo (O Lago Avesso), Carlos Campaniço (Os Demónios de Álvaro Cobra), Ana Margarida Carvalho (O Que Importa a Fúria do Mar), dos quais tenho ouvido dizer muito bem. Infelizmente o tempo não chega para tudo, mas, como portuguesa cansada de ouvir denegrir o seu país em múltiplas vertentes, a descoberta de cada um destes autores e da qualidade das suas obras encheu-me de satisfação e de orgulho. Enquanto gerar talentos capazes de tocar almas, este país não perderá o alento.

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6 thoughts on “Os Favoritos (II)

  1. Olá,

    Já tinha elogiado a anterior participação nesta nova rubrica e mais uma vez a Sónia veio trazer uma mais valia para o blog com este texto e confirmar que tiveste uma excelente ideia ao convidar pessoas tuas conhecidas para partilhar os seus gostos.

    Satisfeito por alem do excelente texto ser centrado no que de bom se escreve por cá, logo alvo de louvor sem duvida embora seja mais centrado no escritor que foi a maior revelação para a Sónia, Afonso Cruz que ainda não li, mas apenas por manifestamente falta de tempo, pois tenho quem me empreste os seus livros e este comentário é mais um que leio de que estamos na presença de um excelente escritor.

    Parabéns pelo texto,adorei 😉

    Abraço e um bj para a Sónia

    1. Obrigado Fiacha, pelo teu comentário (em meu nome e em nome da Sónia).
      De facto o bom desta rubrica, para além da “Partilha” é a descoberta e por a descoberta de algo que também conhecemos, e visto de um ponto de vista diferente.
      Podes ir preparando um artigo de fundo também, um destes dias quero-te por cá, sem pressas, quero que nos mostres, os teus favoritos, sejam livros, ou autores. (uma visão sobre a literatura fantástica por exemplo) essa “literatura” que muitos entendem como “menor” ou “infantil”.
      O que me dizes?
      Um abraço amigo.

  2. Obrigada, Fiacha! Realmente o Afonso Cruz é um autor impressionante, e seria impossível fazer um artigo sobre favoritos sem lhe dedicar uma posição de destaque. Mas os outros são também muito nona. Felizmente, Portugal tem valores literários consideráveis!

  3. Sónia, como sempre estou arrebatada pelas tuas palavras, uma ode aos nossos fantásticos escritores. Lê Ana Margarida de Carvalho e prepara-te para o embate!!!!! “Que importa a fúria do mar” deixou-me maravilhosamente de rastos.

    1. Deixar-nos maravilhosamente de rastos é coisa que só os grandes livros conseguem fazer. Estou em preparação psicológica, e as expectativas já pairam entre as nuvens…

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