A Guerra de Gil

A GUERRA DE GILEsta opinião contém alguns pormenores que podem ser considerados SPOILERS

Após a trilogia “Não Matarás” que marcou a minha estreia com o trabalho de Pedro Garcia Rosado, regressei ao livros do autor com esta “Guerra de Gil”. Este exemplar que me foi simpaticamente oferecido aquando da minha visita à Feira do Livro do Livro de Lisboa (2014),  já não se encontra à venda (e é pena) para os fãs do autor que infelizmente não tiveram oportunidade de ler os livros anteriores à série “As Investigações de Gabriel Ponte” (TopSeller).

A Guerra de Gil foi para mim um livro especial por diversos motivos: Para além de ter regressado a um autor que descobri apenas o ano passado, mas que me convenceu por mérito próprio a ler os seus restantes livros. Regressei também ao RI5 (Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha) que conheci pessoalmente nos já longínquos anos 90, como Escola de Sargentos do Exército (ESE).
Foi também um livro que me trouxe à memória os muitos anos que estive ao serviço do Exército Português e das boas recordações que guardo da minha passagem pelas Forças Armadas. É claro que a minha longa “estadia” nas fileiras do Exército, nada tem a ver com este romance, que se passa num conturbado período da nossa história (ainda tão recente) que muitos continuam a fazer de conta que não existiu e outros preferem mesmo esquecer existiu e do qual muitos fizeram parte.

Poderão os leitores “mais jovens” ou aqueles que não estejam suficientemente familiarizados com técnicas, tácticas e alguns pormenores do foro militar, entender a importância deste livro…. Nós Portugueses que para o bem e para o mal temos uma história tão rica e tão preenchida, não aproveitamos o suficiente essas mesmas histórias, (na minha opinião) para as recriar mesmo que em forma de ficção. Agradeço ao Autor que em boa hora e contrariando essa tendência escreveu este livro. O mérito desta história prende-se sobretudo nesse pormenor tão importante, uma ficção assente numa história verídica.

Os anos passam, as mentalidades evoluem, mas as guerras continuam, sempre em nome de alguém ou de um qualquer ideal. O ser humano continua em teimar nada aprender com o passado ou a com a história. Culpabilizam-se os “Alemães” pelo horror do Holocausto, os “Árabes” pelo terrorismo ou os “Americanos” por continuarem a meter o nariz onde não chamados… Enfim coisas que nós “Portugueses” fomos particularmente especializados.

A Guerra de Gil, retrata um dos episódios mais repugnantes da nossa história (que a mim me envergonha enquanto ex-militar e cidadão Português). Existem várias versões para esta história que ficou conhecida como “O Massacre de Wiryamu” ocorrida a 16 de Dezembro de 1972. Ainda hoje, mais de 40 anos volvidos, este episódio continua a ser um tabu e muitas das atrocidades cometidas, continuam por esclarecer.
Um massacre que chocou o mundo e que durante muito tempo, foi negado. Um genocídio planeado que atingiu as povoações de Chawola, Juwau e Wiriyamu, que ficam a cerca de 25 quilómetros da cidade de Tete. Os “responsáveis”  pela morte de mais de quatrocentas pessoas entre elas, Mulheres que foram violadas, crianças e velhos que foram chacinados e queimados vivos nas suas palhotas.
Será bom de uma vez por todas que não se esqueça o que fizemos em Moçambique.
Em Wiriyamu, caprichou-se na morte, uns à paulada, outros pisados, outros degolados ou simplesmente mortos a tiro. Não existem palavras suficientes para descrever o horror que ali aconteceu.

A vida da maioria dos soldados envolvidos neste massacre nunca mais foi a mesma, a maioria destes homens, jovens rapazes com pouca ou nenhuma instrução, militarmente mal preparados e também eles de certa forma vitimas deste massacre, apanhados de surpresa na calada da noite, (Matar ou morrer foi para isso que foram preparados).
É certo que nada  justifica o que aconteceu, mas continua no entanto a existir alguma ignorância sobretudo da sociedade civil relativamente ás instituições militares e aos seus homens.  (A Guerra de Gil) “remenda” a meu ver essa injustiça.
As Guerras passam, mas para quem as viveu e as sofreu na pele, o pior acontece sempre depois. Pior do que a Guerra é a “Guerra Interior” com que lutam milhares de homens, que ainda hoje, não conseguem vencer os seus medos ou conviver consigo próprios e com o seu passado.

É o caso de Vitor Gil o protagonista deste livro que é atormentado pelos seus fantasmas e que não soube conviver com o Massacre de  Wiryamu no qual participou.
Gil compra um velho moinho abandonado e prepara-se desta forma para viver uma vida nova e de certa forma cortar os laços que o prendem ao passado e a uma história que quer a todo o custo esquecer.
No entanto tal não será possível, porque por mais fuja, o passado teima em persegui-lo e de forma indirecta o Coronel irá de novo travar uma nova batalha… e que desta vez poderá muito bem ser a última.
Paralelamente à história de Gil, acompanhamos uma espécie de “organização criminosa caseira” que sob forma de agência funerária trafica droga de uma forma muito invulgar…
O autor que de uma forma magistral e com “alguns” requintes de malvadez 😀 (a fazer lembrar uma vez mais  Thomas Harris) nos serve um prato “gourmet” no mínimo irresistível (A Vitela Branca).

Por vezes as melhores histórias estão mesmo à porta de casa e PGR conhece bem os cantos à casa.

Não me irei alongar muito mais, pois não tarda estou a contar tudo… e não quero retirar o prazer da descoberta de  um livro excepcional que prova uma vez mais porque PGR, goza do estatuto de “Mestre do Thriller Português”.
Frenético e Vertiginoso, “A Guerra de Gil”  é uma guerra sem quartel, cuja batalha final é travada em plena Serra do Cabeço e da qual, apenas um sairá vencedor.

PEQUENOS PORMENORES PARA LEITORES MAIS ATENTOS:

No final de cada livro o autor Pedro Garcia Rosado tem sempre uma nota pessoal onde faz os agradecimentos e dá conta de alguns pormenores que envolvem os mesmos. Tive oportunidade de trocar algumas impressões com o autor acerca de “A Guerra de Gil” que como disse, assenta em alguns episódios que foram reais, como por exemplo o 16 de Março de 1974, onde do extinto RI5 saíram os militares revoltosos com destino a Lisboa, na tentativa falhada de derrubar o Regime e que ficou conhecida como “A Revolta das Caldas” uma acção que um mês depois iria culminar com o 25 de Abril que todos conhecemos.
No que se refere a aspectos da vida Militar o autor esclarece que tomou os conselhos de alguns militares e isso é visível e notável, PGR fez bem o trabalho de casa.
Encontramos no entanto um pouco repetidamente (em pelo menos três situações),  as descrições dos chamados “procedimentos de segurança” (ou seja o cuidado e os procedimentos que um militar deve ter ao manusear a sua arma). Um pouco repetida e abusiva a palavra “bala” para descrever  constituição do invólucro e do projéctil que constituem a “munição” de uma G3, nome com que é conhecida esta histórica espingarda alemã, fabricada durante a Guerra Colonial na antiga Fábrica de Braço de Prata.

Desde o seu peso real (4,100 Kg), ao  tapa chamas, à bandoleira, passando pela culatra, pelo cão e pelo sabre baioneta, (que em boa hora deixou de ser utilizado), até ás diferentes formas de tiro, encontramos as descrições perfeitas de uma Espingarda Automática “Gewehr 3”, (parabéns ao Pedro Garcia Rosado).
Uma cena excepcional, no livro (mas altamente improvável) é precisamente uma das cenas finais, em que um dos personagens é atingido por um tiro de uma G3 e que posteriormente se levanta novamente… A Espingarda Automática G3 é uma Arma de Guerra de calibre 7,62 mm, com uma velocidade inicial de 700/800 m/seg. e com um alcance máximo (pouco provável) de 4.000 metros, o que quer dizer que com esta força de projecção, supostamente entra no primeiro homem de uma fila de 11 e sai no último) ou seja o estrago é enorme e irreparável e sem espaço para “outras manobras”
Mas isto são apenas pequenos detalhes que passarão despercebidos à maioria dos leitores, sei que o PGR não irá levar a mal, muito pelo contrário. É bom sinal, quando um leitor está atento.
No entanto existe um pormenor que mesmo de forma ficcional em “A Guerra de Gil”  nunca aconteceu. O destacamento de Vítor Gil para de Moçambique, do RI5 não saiu um único Militar com destino àquela Província Ultramarina. Após lerem a Guerra de Gil, convido-os a visitarem um outro blogue que mantenho e que nada tem a ver com o Página a Página e conhecerem um pouco melhor o RI5, tão bem descrito pelo autor. em:

http://heportugal.wordpress.com/2014/06/29/regimento-de-infantaria-no-5/

SINOPSE: O coronel Vítor Gil esteve, sempre, do lado errado. Em Moçambique, durante a guerra colonial, matou um agente da Pide, em vez de acompanhar os seus camaradas no massacre da população civil de Wiriyamu. Depois, de regresso ao Regimento de Infantaria de Caldas da Rainha, viveu a revolta militar que, antecipando o 25 de Abril, não triunfou. Trinta anos depois, viúvo e solitário, Gil regressa à mesma cidade e escolhe um moinho isolado para se refugiar do mundo, na fronteira de uma serra inexplorada que confina com o oceano Atlântico. Mas um compromisso familiar vai envolvê-lo na actividade criminosa de uma família invulgar e violenta que tem uma agência funerária e que, beneficiando de um importante apoio local, se dedica ao tráfico de droga através de meios poucos ortodoxos e à comercialização de carne de vitela branca. E Gil é obrigado a entrar em guerra. Outra vez.

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2 thoughts on “A Guerra de Gil

  1. Este tema é, de facto, fascinante. Ele resume bem a estupidez interesseira com que os senhores das guerras manipulam as pessoas. Vale tudo para justificar a maldade. É inacreditável como Marcelo Caetano, visto por muitos como um politico honesto, tem a distinta lata de negar o massacre de Wiriyamu, dizendo que se trata de uma campanha contra Portugal.
    O maior problema da guerra colonial, foi o facto de não termos conseguido resolver esta contradição: por um lado queríamos “civilizar” por outro lado respondíamos À violencia com violência, eternizando esse ciclo vicioso que levas sempre à desgraça

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