Leituras: Segredos da Praia das Camarinhas

SEGREDOS DA PRAIA DAS CAMARINHAS

SEGREDOS DA PRAIA DAS CAMARINHAS | CLARA CORREIA
Artigo Página a Página – 13/3/2013

Numa altura em que a autora Clara Correia se prepara para lançar o seu 2º Romance “Teias Movediças” recupero uma opinião que publiquei no Página a Página, acerca de “Segredos da Praia das Camarinhas” o seu livro de estreia.

Tenho um profundo respeito por quem sabe esperar o seu momento…. ao contrário de mim que sou um gato impulsivo por natureza, gosto de dar saltos bem altos e por vezes no escuro.
Admiro a persistência de quem não desiste, a resistência de quem sabe que o seu momento chegará.
Clara Correia é uma dessas pessoas. Uma grande contadora de estórias que tenho a certeza que colherá mais tarde ou mais cedo os seus frutos.
Palavra de Gato!

No meio de tantos livros que nos vêm parar ás mãos, surgem por vezes pequenas surpresas, este “Segredos da Praia das Camarinhas” é um desses livros e foi seguramente uma agradável surpresa.

O tema não é nenhuma novidade e segue claramente o habitual e tradicional percurso de um livro de suspense e mistério. No entanto houve alguma coisa neste pequeno livro que me surpreendeu bastante (pela positiva).

Tive no entanto alguma dificuldade em opinar sobre ele, resistindo à tentação de fazer comparações com outros livros do género.

CLARA CORREIASe existe dificuldade na opinião após a leitura de um livro que se gostou, quer dizer que a estória marcou e venceu por si própria e que algures nas entrelinhas houve um factor importante e determinante que marcou e primou pela diferença. Afinal quais são os factores que tornam determinado livro num livro especial? Revi mentalmente o livro, voltei a pegar-lhe, folheando de novo as suas páginas em busca de algo que me ajudasse a explicar o que de tão extraordinário teve um livro como este. Sabemos de ante-mão que o mais importante é a qualidade e não a quantidade e acredito piamente que a autora Clara Correia tenha seguido à risca essa velha máxima.

A diferença entre este e outros livros do seu género é que é um livro “nosso” escrito e pensado em Português e sem muitos  floreados, vai directo ao assunto, nem demasiado depressa, nem demasiadamente devagar. É certo que existem muitos livros em Português, e muitos livros que seguem esta linha, mas nem todos conseguem fazer passar a mesma mensagem. A forma e a fórmula que a autora usou para contar esta história, foi o que mais me cativou, ainda mais do que a estória em si mesma. Nota-se claramente que Clara Correia colocou muito de si própria neste trabalho, o que vem conferir um crédito não só à narrativa, mas principalmente aos personagens, tornando-os reais e credíveis, (demasiadamente reais) o que são óptimos augúrios para uma primeira incursão neste género literário. A autora soube marcar pela diferença e soube sobretudo passar essa sensação ao leitor, envolvendo-o numa “teia”  calmamente e bem tecida.

Os nomes próprios, as situações vividas e descritas, as zonas conhecidas da cidade ou a forma de estar e de “falar” dos personagens, levam-nos rapidamente a entrar na estória de Clara Correia, como se fizesse-mos parte da própria acção. A rapidez de integração e as semelhanças entre a vida dos personagens e a vida do nosso melhor amigo, foram meio caminho andado para facilitar o apego e a identificação dos mesmos connosco próprios.

Nesta opinião, estou a tentar ao máximo não falar sobre a história, que é parecida a tantos outros livros do género, para não estragar a surpresa de quem o queira ler, mas tal é quase impossível.

Henrique é o personagem central da estória, um escritor com alguma projecção e reconhecimento no seu trabalho e que tenta escrever um novo livro, encontra-se porém numa fase complicada da sua vida pessoal o que o leva a um bloqueio total. Incentivado por Augusto, o seu (ambicioso) editor, decide partir para um local isolado, para em paz e longe dos problemas e da agitação citadina, tentar enfim, quebrar o bloqueio que tanto o apoquenta. Na personagem de Daniel um professor e velho amigo de Henrique, reconheci uma certa semelhança com os professores deste nosso país, e uma certa semelhança com a sua forma de ver e criticar (com razão) o estado em que se encontra a nossa educação. Não quero estar a tentar adivinhar, mas tenho quase a certeza que nesta parte a autora deu, muito de si à narrativa. (não conheço a autora, sei apenas que é uma entre os milhares de docentes em Portugal) Henrique parte então para um local não demasiado longe, mas suficientemente isolado da grande cidade e dos problemas que o levaram a “fugir” da sua prisão e rotina.

Procurei em vão num mapa pela Praia das Camarinhas e não encontrei qualquer lugar com esse nome, fiquei curioso, pois conheço relativamente bem a zona onde se desenrola a acção deste livro. Não sei se o nome é ficcionado ou não? No entanto revi-me bastante naqueles lugares  isolados e identifiquei os típicos habitantes locais, prestáveis para com os forasteiros, sempre à procura de uma forma de fazer mais um pezinho de meia, boas pessoas, mas demasiadamente “curiosos” pela vida alheia, principalmente quando se trata de “gentes da cidade”.

Personagens bem estruturados, bem desenvolvidos, bem reais, bem nossos,  foram sem dúvida a parte mais importante e aquilo que mais me marcou nesta “Praia das Camarinhas”: A empregada da limpeza aquela que já faz parte da família, a ex-mulher que ama, mas ama também a sua profissão e a sua independência, a Dona Otília e os seus misteriosos chás, a Joaquina Adão uma mente progressista, numa terra de gente tacanha e claro os garanhões da terra, não poderiam faltar. Como sempre neste género de livros, só respiramos quase no fim… e aqui foi a única parte do livro em que teria “estendido” mais um bocadinho, “o mau da fita” descobre-se demasiado cedo Clara Correia, tinha tudo para poder esticar um pouco mais o cordel e suspeitos não faltam neste livro, até o mais inocente poderia estar na origem do destino de Henrique… (e mais não vos conto)

Este livro nada fica a dever aos famosos thrillers  que por via de uma máquina gigante de propaganda conseguem vencer, muito antes de serem lidos, uma escrita “Clara” de quem domina a língua e sabe contar uma história.

Em termos de revisão de texto “nota 20″ quando comparado com outro livro que li desta editora, creio que terão mudado o revisor (em boa hora o fizeram).

Recomendo este livro sem quaisquer reservas. Gostei muito.

Sinopse: “Em plena crise sentimental e de criatividade, um escritor instala-se, temporariamente, numa pequena vila piscatória, onde não tarda a iniciar o seu novo livro, enquanto se deixa cativar por uma bela rapariga e pela simplicidade da comunidade local. Mas, à medida que começa a desconfiar das aparências, está longe de imaginar que está prestes a viver a sua mais terrível experiência…”

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