Poema das Sombras das Barcaças

Afonso de Freitas
(1927-1992)

poema das sombras das barcaças

Todas as noites
eu procuro a solidão da beira – mar
na ânsia infinita de encontrar
o que há mais desejo.
A sombra das barcaças presas ao cais
parecem pensativas,
lembram-se talvez,
das noites que se foram,
das tardes tempestuosas
em que o céu e o mar em luta qual gigantes
ameaçaram-nas tragar a quase todo instante.
E pensam a dançar…
pensam, a dançar, na angústia incontida
dos valentes barqueiros nas barcaças perdidas
na vastidão do mar.
As sombras das barcaças presas ao cais
parecem as almas dos barqueiros
que se foram para o mar
e não voltaram mais
e tem o aspecto tristonho
das muralhas caídas, que eu vejo nos meus sonhos.
São ruínas de lindos bangalôs
construídos, outrora, para o meu amor,
e o meu amor era bela como uma tarde formosa,
E nessas tardes assim,
saía ao jardim e perfumando as rosas,
voltava com blandícias
que para mim tinham o calor de todas as carícias.
Mas, um dia,
numa noite tristonha, plissada de luar,
eu a sorrir, ela a chorar,
brigamos por motivos tão banais…
e desde esse dia ela nunca mais me viu,
nem eu a vi, nunca mais.

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