Madame Bovary – Gustave Flaubert

Madame Bovary

Três dos meus autores favoritos são de língua Francesa, (por coincidência, todos eles do mesmo século) são os meus favoritos porque os li e me apaixonei por eles. Li-os enquanto estudante e sem obrigações (bendito professor) e ainda hoje de xis em xis anos os volto a ler, sempre com redobrado agrado e quase sempre como se fosse a primeira vez, pois descubro sempre um ou outro pormenor que me passou ao lado.
A par de Dumas e de Verne, Gustave Flaubert está sem dúvida entre eles, não apenas com Bovary, mas também pelos inesquecíveis “Salammbô” e “A Educação Sentimental”.
Segundo reza a “lenda” Flaubert terá morrido, quase na miséria, após ter perdido grande parte do seu património para ajudar alguns parentes, mas terá dito: «Irei morrer, mas a puta da Bovary irá sobreviver-me» Mais de 150 anos depois da sua publicação original, Madame Bovary continua tão actual, como se tivesse sido escrito ontem, pois embora se mudem os tempos e as vontades existem certos temas que ainda hoje causam alguns constrangimentos. É certo que se Flaubert lesse o pornográfico livro do senhor “Grey” e os seus derivados, acredito que morresse na hora com uma apoplexia.

O mundo mudou, mas a forma como hoje são tratados certos assuntos mais ou menos íntimos banalizou-se de tal maneira que hoje são considerados “normais”, no entanto… fora dos livros, sabemos que esses assuntos continuam a suscitar interesses sórdidos e mexericos de toda a espécie, causando danos graves na vida das pessoas e que ainda hoje podem ser fatais. O ser humano evoluiu, mas ainda hoje no século XXI quando falamos de adultério, muitas mentalidades parecem ainda habitar o longínquo século XIX, tão bem retratado por Flaubert em Madame Bovary. Justiça seja feita a este autor, que pagou caro o facto escrever e ousar falar sobre um assunto que era um sacrilégio, mas que sem dúvida foi inspirador para outros escritores como Emile Zola (O Crime do Padre Mouret) ou  Guy de Maupassant (Bel-Ami) e atrevo-me a dizer que talvez até os nossos Eça, Camilo, ou Júlio Diniz, não tenham ficado insensíveis ao tema e à polémica, como se veio a comprovar mais tarde com as publicações dos eternos “As Pupilas do Senhor Reitor” e  “Amor de Perdição” e claro os imortais “Os Maias” “O Primo Basílio” ou “O Crime do Padre Amaro”

Cada leitor retira de um livro opiniões e experiências únicas e por vezes muito diferentes quando comparadas com as de outros leitores e Madame Bovary é sem dúvida um livro que causa as mais diferentes sensações num leitor. Emma consegue ser amada por uns e odiada por outros, no entanto esta obra é muito mais do que um livro que aborda o adultério, Flaubert soube recriar e aprofundar a época e as mentalidades mas arriscou demasiado ao decidir levar para a frente este livro, não só pela sátira à classe burguesa, mas também por mordazes críticas à religião católica pela personagem do Sr. Homais (o farmacêutico). Nota-se claramente as opiniões formadas que Flaubert tinha em relação a este assunto. O autor foi julgado em tribunal por atentado aos preceitos morais e religiosos, aquando da publicação de Madame Bovary.

Lido hoje em dia este livro não deixa de fazer sorrir o leitor, não apenas pelo seu tom trágico e fatalista e demasiado romântico (como eram quase todos romances da época).
Esta história que a nós em pleno século XXI  parece quase uma comédia e que a ser verdade, se resolvia com um simples divórcio e ponto final, era para a sociedade da época um crime e um atentado à moral e à sociedade. Mulheres como Emma Bovary tinham muito a perder, se cometessem adultério, seriam isoladas e perderiam os poucos direitos que tinham. (nesta altura as mulheres eram consideradas uma raça inferior)
Inicialmente Flaubert apresenta-nos Charles Bovary, filho de uma família de pequenos burgueses (a classe média-alta daquele tempo) que desde os seus tempos de rapaz de escola era já um pateta e gozado pelos seus colegas, mas a custo lá conseguiu tornar-se médico, algo que para a sua mãe a Senhora Bovary era motivo de orgulho. Mais tarde Charles acaba por casar com uma mulher dominadora e controladora, mas para sua sorte (ou não) acaba por ficar viúvo.
Após ter tratado o Sr. Rouault, de uma perna partida, Charles começa a cortejar a filha do agricultor, Emma  que conquista Bovary com a sua beleza e forma de estar na vida. A rapariga é uma sonhadora e apercebemos-nos  de imediato que é uma mulher caprichosa, habituada a conseguir tudo o que quer por ser orfã de mãe e filha única. O que ela sabe da vida é apenas aquilo que vem nos muitos romances que leu, para ela a vida era aquilo que os romances descreviam. É sempre questionável nesta altura (a nós leitores) se Emma era apenas ingénua ou simplesmente tola? Para mim, nenhuma das respostas está correcta…  por muito que Flaubert tente fazer crer o contrário, Emma é dissimulada do início ao fim do livro. A futura senhora Bovary, aproveita aqui a oportunidade de deixar a casa do pai e criar a sua própria vida.
No início do casamento Madame Bovary, cumpre o seu papel de boa dona de casa e de esposa perfeita, no entanto Emma quer mais, pois o que tem não lhe chega. Cedo, chega à conclusão de que o seu casamento foi um engano e de que Charles não é marido para ela.
Madame Bovary é infeliz e sente-se só, afinal o casamento não é o conto de fadas que sempre sonhou. A monotonia e as constantes ausências de Charles que está fora em trabalho, vêm corroer mais rapidamente o casamento do jovem casal. Charles nunca se apercebe de que Emma é infeliz e idolatra a mulher, para ele o importante é que ela esteja ali, sempre disponível para ele.
Mais tarde Emma deixa-se envolver por Rodolph um burguês que apenas se quer aproveitar da beleza da atraente mulher, sem no entanto querer nada de muito sério. Completamente apaixonada a senhora Bovary, acaba por trair o marido, mas com o passar do tempo, começa a revelar um comportamento possessivo e doentio e o amante perde todo o interesse nela.
Habituada a que Charles lhe dê quase tudo o que deseja, a mulher começa a fazer compras desnecessárias e a destruir, sem que o marido se aperceba o património da família.
Mais tarde Emma reencontra Léon, um jovem que anos antes se apaixonou por ela e volta novamente a trair o marido encontrando-se regularmente com o novo amante. Começa então a ser descuidada e a empenhar-se de tal forma, que só consegue parar quando é penhorada pelo tribununal, pois não consegue cumprir nenhum dos compromissos que assumiu. Emma chega a pensar inclusivamente em prostituir-se para conseguir pagar todos os excessos que foi cometendo ao longo dos anos.

O final destinado a Emma  é sobejamente conhecido pelos leitores, A horrível Madame Bovary, com todos os seus defeitos conseguiu de facto sobreviver a Gustave Flaubert e tornar-se numa heroína, que ganhou um estatuto imortal na história da literatura.
É um livro que recomendo, e que deve ser lido pelo menos uma vez na vida.
É um dos livros que fará sempre parte da  minha Biblioteca Ideal.

Sinopse:

Emma, nascida no seio de uma família da pequena burguesia, foi criada no campo e aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico de província tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao casamento, a que Emma se sente presa. Revoltada com a sua vida, Emma perseguirá os seus sonhos, com consequências trágicas.

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