A ÚLTIMA A MORRER

Os minutos já deixaram de parecer horas e são, na minha mente, substituídos por aparentes dias de inexplicável agonia (e, no entanto, ainda não é uma da manhã). Amarras-me ao martírio diário com amarras de intolerável mistério que só eu tolero.
6 ANOS 6 ESTORIAS
Fotografia de Clara Correia

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A ÚLTIMA A MORRER
Por: Clara Correia

    … Tenho os olhos a fecharem e aberto o computador, insistente na oferenda de mais uma espera … à espera do meu desespero por ti; não desespera pela demora.
É assim agora, neste momento, neste desfilar de momentos desfiados pelas horas que tu … que a web … que eu (admito, que eu …) marcamos num destino disfarçado de distância falsamente anulada. Passam dez da meia – noite. E tu que não chegas! Bem sei que não ouvirei os teus passos (como soarão eles?) e que o som da tua voz não se propagará até mim (que timbre terá?), mas fazes magia através do Messenger … transportas-me ao céu (“Heaven can wait” but I can´t).
Os minutos já deixaram de parecer horas e são, na minha mente, substituídos por aparentes dias de inexplicável agonia (e, no entanto, ainda não é uma da manhã). Amarras-me ao martírio diário com amarras de intolerável mistério que só eu tolero. Apercebes-te de que, lentamente, me móis e matas a minha paz, o meu ego, a minha vida, a minha família?!

Não sei quem és, como és, onde estás … já não sei se me interessa saber para lá da certeza da tua existência. Doem-me os olhos, voluntariamente violentados. Irrompes de súbito, finalmente! … como se personificada na parca mensagem a luzir no écran. Insultas-me e pouco mais. Sorvo tudo o que me queiras dirigir com a mesma avidez com que, insuportavelmente, anseio por algo mais.

Tão repentinamente como vieste, vais. Nova ausência online a preceder velha e longa espera. Nova insónia me espera. Nunca tanto amei a noite, muito mais a próxima do que esta, em que não é provável que voltes … mas quem sabe! … sem hesitar, troco a urgência de uma hora de sono pela constatação da improbabilidade da tua breve aparição online.

Para lá da esperança de vir a conhecer-te o rosto, a minha obsessão será a última a morrer.

*  *  *

Nicholas Negroponte, norte-americano reconhecido internacionalmente como o guru da era digital e profeta da sociedade de informação, atribuiu à era digital, em jeito de vaticínio, quatro qualidades muito poderosas e que seriam responsáveis pelo seu triunfo final: a descentralização, a globalização, a harmonização e o chamado “empowering”, conceito que associa o poder, a autonomia, a informação e a liberdade de decisão e acção.

CLARA CORREIA
Nasceu a 26 de Junho de 1969, na Nazaré e vive na Amadora.
É Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e tem formação em Escrita Creativa e Guionismo para TV. Faz revisão de texto e escreve Conto, Poesia, Romance e “letras” para canções.
O seu primeiro Romance “Segredos da Praia das Camarinhas” foi publicado em 2012, tendo participado, desde então em várias antologias e colectâneas.
A convite de uma editora, foi no mesmo ano jurada na eleição do melhor conto de uma colectânea de contos de Terror/Insólito.
Em 2015 foi lançado o seu segundo romance “Teias Movediças”

Escolha de Clara Correia:

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