Márcia

Tempestade

Espera sempre dos momentos Alguma coisa que ao passar te leve mais além
A mais algum conhecimento
Mas não queiras salvamento se faltar a alguém

Dança o teu azar enterra-o por aí Vem passar por dentro da tempestade
Lança-te a voar nada como abrir as asas ao vento
e aprender a cair

Convence o próprio pensamento a abrir as portas para passar sem vetar ninguém Cada Ser seu sentimento e talvez o salvamento nos salve a nós também.

FOTOGRAFIA:
“TEMPESTADE”
By: Nuno Chaves

Released on: September 2018

 

Canção: Tempestade
Márcia

© 2018 – Página a Página e Nuno Chaves
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9 anos2

Gente (de nós)

01
*
Há pessoas que se tornam tão especiais que nem a distância é capaz de afastar de nós.
“Mecânicos do Coração” que o consertam, que o colam e que nele fazem morada.
Gente que entra sem pedir licença, sem bater à porta. Gente presente, que se faz presente. Sempre.
Gente sem restrições, Gente que sabe que o amor vai muito além de qualquer barreira ou preconceito.
Gente que aceita defeitos e falhas sem criticar, porque compreendem que a perfeição não existe, excepto a de amar. Amar incondicionalmente e sem perguntas nem porquês.
É esta a gente entre mim, a gente de mim. A gente entre nós. A Gente de nós.
Esta gente que faz os dias valerem à pena!…
Gente que nos rouba beijos, sorrisos, esperanças e que dividem olhares cúmplices de afecto de carinho e ternura. Gente que retribuí, sem questionar, sem cobrar.
É esta a Gente.
Gente do nosso lado, que nos dá a mão e nos ampara.
Gente que nos está no olhar a cada novo recomeço. Gente que nos leva à boleia no vento da tarde, na corrente do rio, nas estrelas da noite, na brisa da madrugada.
Gente que nos dá saudades…
Gente que me sabe Amar, como Gente.
Gente de mim, de nós. Gente como eu.
A minha gente.

O Mundo ao Contrário

Ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro.
«Nathaniel Hawthorne»

o mundo ao contrário

“O MUNDO AO CONTRÁRIO”
© – 2008 | Nuno Chaves Fotografia
Todos os Direitos Reservados

 

Cabra-Cega

Zero a zero, não me espanta o impasse
se você quer, escondo o medo sem mostrar como o faço
no entanto amargo a cada som que não me sai, que adormeço
tenho cara de quem morde mas apenas sou o que mereço
uma oração pra perder o meu embaraço
em hora sã hei-de por termo ao que só me traz cansaço
a cada cara à minha volta que me fita só que eu não posso ver
que tem a fé num perfeito que eu não sei fazer
e eu sei de mais ou menos cem
quiçá eu não apareço hoje….
quero ficar bem a sós
amuada no meu canto e a aquecer a voz.

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta
mas também, sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta
e olha quem, tem a fome da sinceridade ao menos não te dei a volta
e eu não volto a jogar à cabra-cega com usted

Nunca sei porquê o maltrato é um unguento
que sem ninguém ver vai guardando cimento
a cada cara à minha volta vou lhe dizer só que eu não posso mais…
quero sedar o meu som confinar-me a afinar em silêncio

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é esperta
mas também, fugir pra ti faz parte de investir na pessoa certa
e olha quem vem agora pra ficar é que eu ao menos não deixei aberta
a minha porta a ver quanto tempo sobra pra quem vem
a minha porta a ver quanto tempo sobra

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta
mas também sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta…
e olha quem tem a fome da sinceridade ao menos não te dei a volta
e eu não volto a jogar à cabra-cega com usted
e eu não volto a jogar à cabra-cega

  • Artista: Márcia
  • Música: Cabra-Cega
  • Álbum: Dá (2010)

O Mais Humano Sentimento São

Chega lá do sol, e não me mossa mais
basta uma avenida para saber, que os dias podem adormecer
não serão iguais.

“O MAIS HUMANO SENTIMENTO SÃO”
© – 2015/11/23 | Nuno Chaves Fotografia
Todos os Direitos Reservados

O Mais Humano Sentimento São

Enquanto eu durmo aqui, há monstros animais
que de cinzento pardo, vêm cada ano em pesadelos ancestrais
e andam por aí, mostram-me os sinais
do negro desengano, que ao descer do pano
tu trazer-me vais.

Chega lá do sol, e não me mossa mais
basta uma avenida para saber, que os dias podem adormecer
não serão iguais.

Quando eu te sorri, mente a bagunçar, fui ver-te em mano a mano
faz-de conta que arde em busca de ilusão
mas humano estando assim, nunca se lhe dá o irmão
mutuo fã faminto, pode ser que a vida vá desenvolver, o mais humano sentimento são.

O meu espanto é dor, sonho que acordou, que até o céu chorou
como eu nunca vi, doce amor.

 Que eu conheci.

Mudar?

Não espero mais. Porque não quero continuar à espera que te lembres de mim. Não quero passar mais noites sozinha, a olhar para o relógio. Não quero ir mas tenho de mudar.

Gil Cardoso © 2015 - www.gilcardoso.net

Gil Cardoso © 2015 – http://www.gilcardoso.net

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MUDAR? 
Por: Márcia Balsas

Crescer é mudar. É inevitável, disse-lhe eu, naquele dia em que já tinha as malas metidas no carro, o bilhete de despedida escrito, e as lágrimas engolidas no fundo do peito. Despedi-me com um abraço forte, podia ser o último. Senti incompreensão e doeu-me o abraço frio do meu irmão. Mas eu não podia continuar e, naquela manhã, mudei o sentido de tudo.

Passei a noite em branco. A pensar. Caminhei pela casa com os pés descalços e, quando a solidão das paredes me sufocou, abri as janelas e deixei que o frio da noite me libertasse. Gelada, abri gavetas e bati portas, deixei ficar as coisas favoritas para sofrer menos quando estivesse longe, peguei no retrato tirado no dia do nosso casamento e virei-o para a parede, não quis testemunhas da minha última noite na nossa casa.

Não espero mais. Porque não quero continuar à espera que te lembres de mim. Não quero passar mais noites sozinha, a olhar para o relógio. Não quero ir mas tenho de mudar.

Saio cedo porque quero evitar ver-te. A decisão está tomada, saio agora para não desistir de partir. Deixo-te o espaço triste que era meu. Há pão macio no cesto e compotas caseiras na despensa, é preciso mandar arranjar o forno, o Sr. João do quiosque guarda o jornal todos os dias. Não te esqueças de deixar a chave à Eduarda às terças-feiras.

Fujo de ti.

É tarde. Como tantas vezes foi tarde e eu fiquei. Pela janela é noite, e nos vidros apenas o reflexo das luzes cá de dentro. Deixei que todos fossem embora. Ninguém estranhou que eu ficasse, por quase sempre ficar. Habituaram-se. Gosto do silêncio que fica quando todos saem, do momento em que os computadores são desligados e as luzes apagadas. Antes de retomar o trabalho fico sempre a gozar esse momento em que o som se extingue e a porta bate pela última vez.

Levanto-me e faço um café. Habitualmente procuro guloseimas escondidas no armário, respiro fundo e sorrio pela sensação que antecipa a minha entrega às tarefas a que, agora, me posso dedicar sem pressa. Gosto de me embrenhar nos cálculos minuciosos sem que o telefone me interrompa constantemente. Sem que a secretaria venha a toda a hora pedir assinaturas anulando a minha linha de raciocínio.

Contudo, hoje não fiquei para trabalhar. Hoje é o meu último dia aqui, ou melhor, a última noite. Fiquei para limpar as gavetas, para arrumar os armários, e para deixar de existir como peça desta organização. Não consigo dizer adeus, por isso sairei antes de ser manhã e todos chegarem. Não te deixarei sozinha outra noite. Não voltarei a chegar tarde porque não irei sequer sair. É tempo de parar, de me aconchegar em ti, de esquecer os números e viver. Crescer é mudar.

Volto para ti.

Márcia Balsas

MÁRCIA BALSAS

Nasceu a 15 de Agosto em Coimbra em 1977. Actualmente vive no Montijo. Ama os livros.

Escreve sobre os livros que lê. Escrevinha sobre viagens imaginadas. Precisa do silêncio. Procura esquecer o relógio e o telemóvel.

Gosta das redes sociais da vida real, de se sentar e falar olhos nos olhos, de guardar sorrisos e palavras, de preferência na mesa da Roda dos Livros. Precisa da partilha livresca com essa família de leitores anarcas.

Encontrem-na aqui:
Planeta Márcia | Fugir para Ler | Roda dos Livros

Escolha de Márcia Balsas:

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# 6 Anos – 6 Estórias – Mudar?

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